“Extremismo? Porque não? Em se tratando de honestidade ou de sinceridade não é recomendável utilizar meios tons. Radicalmente, é preto no branco. (...) Sei que nos meios jurídicos (...) em se tratando de uma sociedade onde a corrupção é moeda corrente e moral vigente parece complicado, mas é, sobretudo, nesses casos onde a tolerância deve ser zero. E não adianta acusar o governo de corrupto, de desonesto, desde o conforto de uma casa, pagando um salário mínimo para que “um cidadão de segunda classe” levante de madrugada, utilize um meio de transporte indigno para, isso sim, oferecendo-lhe em troca, a face sorridente e hipócrita da piedade, limpe os excrementos de “cidadãos de primeira”. É muito conveniente clamar por moderação quando o status nos favorece. Nenhuma sociedade é justa, mas algumas o são menos. Algumas sociedades, insistem em colocar seus cidadãos em extremos muito distantes e seguem sua filosofia da moderação, do meio termo da não mudança. E se na questão da honestidade e da sinceridade não deve existir a tolerância e sim radicalismo, na hora de distribuir as camadas sociais, o meio termo, aí sim, é o ideal.
A figura de linguagem (não é recomendável sua utilização literária abusiva, ou se preferir, com radicalismo) do claro e do escuro é oportuna. Na extrema claridade todos, exceto os desprovidos de visão, somos capazes de ver. O surpreendente é que na mais radical das escuridões, essa desvantagem desaparece e todos partem das mesmas condições, o que prova que as carências globais acabam, de certa maneira, fazendo justiça, igualando as condições, algo que a opulência é incapaz de produzir. Já na penumbra, bem, é nessas condições, que as aparências enganam, que as ratazanas se movem com maior comodidade. A penumbra tinge de tons grisáceos o entorno e permite que os mais privilegiados, aqueles que dispõem de maiores recursos, alcancem rapidamente os pontos de luz, o privilégio do conforto. À massa, lenta e desfavorecida, resta apinhar-se nos recônditos penumbrosos, esperando que um bosco de luz escape para que, por momentos, possa ter a sensação de acesso a uma dádiva. Bom, tudo isso não passa de figuras de linguagem. A realidade é bem menos lírica e muito mais dura, apesar de que a hipocrisia das classes dominantes em certas sociedades pareça querer eternizar e até ampliar as diferenças. Pobreza extrema, riqueza extrema, concordo, são desprezíveis. Formação acadêmica máxima para alguns e nenhuma para outros, mais do mesmo. Mas talvez a solução a situações extremas pouco dignas não passe por usar a pieguice ou frases feitas, mas de ser radicalmente crítico com as injustiças”. (Leia o artigo que ensejou o comentário em http://www.comerciodafranca.com.br/materia.php?id=22651)
Carlos Marti Hernandez
doutor em Comunicação, ex-docente da Facef, docente do SERVEF em Valencia (Espanha), é leitor do site do Comércio da Franca
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“Não costumo replicar críticas aos meus textos, a não ser quando contêm ataques pessoais. Tenho índole pacata, mas não sangue de barata. Parece que o Doutor Carlos Hernandez acordou de mau humor e resolveu descarregar em mim. Talvez ele estivesse tomado pelo tédio, pois com tanta coisa melhor pra fazer... (...) O fato é que escreveu sua crítica com raiva. E raiva turva a visão. Qualquer leitor é capaz de entender a essência do texto, no qual não há menção a meio-termo em questão de sinceridade e honestidade. A abordagem é sobre o amor e o ódio. Aliás, para publicação no Comércio diminuo os textos pela limitação do espaço. No original, (...) consta no fim do primeiro parágrafo: “Há casos em que o radicalismo é necessário, mas sobre isso falaremos em outra oportunidade, pois em se tratando de amor e ódio deve valer a sabedoria do meio”. Quem quiser a íntegra pode me pedir por e-mail. O que penso sobre probidade, ética, etc. está nos artigos “Caráter”, “Ética”, “Paixão” e outros. O doutor fala em ‘cidadãos de primeira’, favorecidos pelo status, privilegiados, hipocrisia das classes dominantes, pieguice, entre outras coisas. Refere-se a mim, obviamente. Comecei a trabalhar com 12 anos, de bóia-fria; depois fui lavador de carros, entregador de pães de bicicleta, de madrugada (começava às 3h00), padeiro/confeiteiro, contínuo e escriturário de banco. Escola pública até o colegial. Ingressei no Ministério Público com 32 anos. Pois bem, dos 48 anos que tenho, durante dois terços fui ‘durango kid’. E o doutor vem falar que na vida real não tem lirismo! Pieguice? Que nada, pura festa. Não sou cidadão de primeira não, seu ‘dotô’. Sou o lixo que saiu do cesto para observar em volta e foi ficando. Se precisar voltar, sem problema. A vida é uma festa. Estou acostumado a levar tombos. Cá entre nós, lancei um livro, cujo custo precisei bancar; otimista, pensei que fosse vender bem em Franca. Doce ilusão! Com dois meses, não vendi nem cinco dos trinta exemplares que deixei na Martins. Lirismo? Pieguice? Não, só um tombo. O que escrevo não deve mesmo valer grande coisa. Por isso até estou pensando em dar um tempo e fazer outras coisas. Vamos tocando, seu ‘dotô’. Mas sugiro que melhore seu ‘humô’”.
Paulo Pereira da Costa
é promotor de Justiça, autor do livro Pensando na Vida e articulista do Comércio da Franca
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