O retorno de Gonzaguinha


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Não é de hoje que a Globo vem trazendo à tona sucessos musicais do passado em suas novelas. Só para citar os mais recentes, Bethânia regravou Sábado em Copacabana, de Dorival Caymmi e Carlos Guinle para a música tema de Paraíso Tropical. Ainda no mesmo horário, Tom Jobim tem sido relembrado freqüentemente - em Páginas da Vida, Celebridade e Senhora do Destino. Desta vez a emissora assume por tema das 20 horas um dos mais produtivos e respeitados compositores dos anos 70 e 80: Gonzaguinha que, infelizmente, é um dos mais ilustres desconhecidos pela nova geração. A propósito, a música de abertura da novela Duas Caras é E Vamos à Luta. A letra você pode acompanhar no quadro abaixo. O talento do compositor e o estilo do cantor foram referências para muitos artistas entre os anos 70 e 90. Suas composições foram gravadas pelos mais variados intérpretes, o que foi uma conquista rara no meio. Dos grupos de Pop Rock e New Wave, que pipocavam as boates até os recantos boêmios do samba carioca, o compositor conquistou trânsito livre, respeito e admiração. Ele tinha acesso livre junto a todos os estilos musicais e agradava à maioria do público, dos adolescentes aos idosos com suas letras elaboradas, porém de simples compreensão e mensagens diretas. Falava ao coração, à paixão -por alguém ou por um ideal - e foi respeitado por isso. Muitas de suas composições são conhecidas até hoje, e passam com a maior facilidade por sucessos recentes, tal a contemporaneidade do estilo - música de roda de amigos - do autor. Entre as mais conhecidas podemos citar Pacato Cidadão, Começaria Tudo Outra Vez, É..., Espere Por Mim Morena, Explode Coração, Fala Brasil, Felicidade, Grito de Alerta, Guerreiro Menino, Lindo Lago do Amor, Maravida, Sangrando, entre muitas outras mais. O resgate da Globo, mais que uma homenagem ao compositor, é uma clara tentativa de captar para seus índices um público saudosista e de clareza de idéias - muitas irrigadas pela sabedoria de Gonzaguinha. É bom que as novelas continuem a ensinar que a vida pulsa em mais de três acordes... Outras de suas músicas e cifras podem ser obtidas no site vagalume.uol.com.br/gonzaguinha. VIDA E OBRA Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, nascido em 1945, era filho adotivo do Rei do Baião Luiz Gonzaga e iniciou sua vida de compositor ainda jovem. Aos 14 anos, compôs Lembranças da Primavera, Festa e From U.S of Piauí, que seu pai gravaria em 1967. Formado em economia e revezando seu tempo entre os livros e o violão, criou-se o homem de visão social e comprometimento político. Participou da formação do Movimento Artístico Universitário (M.A.U.), composto por Ivan Lins e Aldir Blanc, entre outros. O M.A.U. acabaria sugado pela TV Globo - que em 1971 lançava o programa Som Livre Exportação - que dissolveria o grupo de amigos logo após. Gonzaguinha foi agressivamente contrário. O programa continuou apenas com Ivan Lins no comando e Gonzaguinha conquistou a fama de artista agressivo, chegando um jornalista a chamá-lo de “cantor rancor”. No campo das brigas, aliás, o compositor era mestre. A censura “amputava” tantas composições suas que a produção em massa de letras era uma necessidade. Gonzaguinha chegou a apresentar aos censores 72 composições para que aprovassem apenas 18 para seu novo disco. O que colaborou para que seus discos fossem vendidos rapidamente. Tomado por tuberculose em 1975, o compositor submeteu-se a um retiro. “Achei que devia retomar toda uma espontaneidade em termos de apresentação, de estar no palco como se estivesse em qualquer outro lugar”. E assim o fez. Seu próximo trabalho Começaria Tudo Outra Vez foi o divisor de águas que o lançou ao sucesso e aos aplausos de público e crítica. Ao volante de seu carro percorreu todo o País e encerrou uma vida curta e plena, aos 45 anos, nas estradas do interior do Paraná, em 1991. Uma colisão encurtou sua trajetória, mas não seu sucesso, que até hoje perdura cantarolado - mesmo por quem não conheceu o autor.

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