A felicidade é uma abstração de ampla definição, um fenômeno universal que se relaciona a alegria e prazer, e que está contida nos anseios de todos os seres humanos, mesmo que as vias para alcançá-la sejam tão diversas de um sujeito para outro.
Relativa também à equação falta x desejo, não há como garantir sua permanência, nem há, tampouco, como prometê-la.
É muito comum um psicólogo ser procurado na clínica por um paciente que espera, sinceramente, já numa primeira sessão, que o profissional lhe acene um horizonte sem dor, plácido, pleno de felicidade. Quem, ao menos inconscientemente, não quer isso?
A clínica psicológica séria não promete milagres, não se vale de misticismos, nem garante felicidade, essa experiência fugaz que insistimos, via medicamentos, por exemplo, tornar um continuum ou um imperativo. Como diz Maria Rita Kehl, essa facilidade em medicar qualquer mal estar psíquico ‘tem o efeito de esvaziar a subjetividade’. Eu acrescentaria que cumpre uma missão narcotizante, amortizante e paliativa.
Mas, mesmo assim, será que se fosse contínua, sem o contraponto de seu avesso, sua dualidade, a felicidade teria graça? Poderíamos reconhecê-la?
Será que em nossa grande capacidade adaptativa não nos sentiríamos logo entediados com tal estado e daríamos um jeito de criar um conflitozinho a lhe fazer frente?
E é nesse ponto que entra a ajuda psicológica. O tratamento pode auxiliar, sim, e muito, na lida com os conflitos de qualquer natureza. Pode levar o paciente a perceber, depois de um bom tempo de trabalho conjunto, que felicidade diz respeito à supressão temporária de uma falta, ou seja, um preenchimento, mas que a falta é uma das condições humanas e que nossos desejos são apenas parcialmente satisfeitos, porque na realização de um desejo, logo se seguirá uma outra falta, ou seja, ele estranhamente sobrevive de sua insatisfação e a felicidade talvez aflore nesses intervalos. Como disse Lacan, ‘o desejo é sempre o desejo de um outro desejo’. O próprio Freud escreveu que a psicanálise até pode auxiliar na resolução dos problemas da miséria neurótica, mas ela nada pode fazer contra as misérias da vida como ela é. Ainda para o médico vienense, a experiência da felicidade só acontece nos momentos de trégua dos conflitos inerentes à condição humana.
Boa parte do sofrimento se dá diante da imposição moderna à felicidade, isto é, quando, de contingência ela passa a ser uma obrigatoriedade. Outro exemplo, quando delirantemente passamos a acreditar nos encantamentos da indústria, de que a roupa, o carro da moda, o celular hi-tech nos trarão a almejada felicidade. No máximo, nos emprestam alguns minutos de euforia e é só. Trocando em miúdos, o trabalho analítico levará o paciente à compreensão do que ele precisa e do que ele realmente não precisa para ser mais feliz, ou menos infeliz. Também não é, nem de longe, uma tentativa de moldagem do sujeito a algum ideal pré-estabelecido, ou, o que é pior, à imagem e semelhança de seu analista. Num casamento perfeito entre a filosofia e a lógica psicanalítica, diz Kant: ‘Ninguém pode me obrigar a ser feliz a sua maneira’. Esse filósofo que se deteve longamente nesse tema dizia ainda que, para nossa própria ‘felicidade’, o máximo que devemos almejar é sermos dignos da felicidade e não propriamente felizes. Bem, é um ponto de vista possível!
Toda a psicologia, aliás, é herdeira da filosofia, a psicanálise também, calcada no método socrático, a saber, aquele que ousa buscar, sem, contudo responder. Curiosamente, no entanto, todo aquele que passou por análise pessoal sabe que a psicanálise não deixa questões por responder, exatamente porque tais respostas estão contidas na linguagem do analisando. O trabalho do analista é abrir caminhos para que a emergência daquilo que o sujeito traz.
Há modos, intensidades, abrangências, jeitos de ser feliz que podem variar imensamente de uma pessoa para outra, isto é, a busca pela felicidade é, sem dúvida um fenômeno universal, sua realização, não, esta é subjetiva e, novamente, momentânea.
CONTRIBUIÇÃO LÍRICA
No ‘Livro do Desassossego’, uma espécie de tratado lírico da (in) felicidade, (a depender da qualidade da leitura que dele se fizer) o poeta luso Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Bernardo Soares diz: ‘O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos de coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, a realidade dos nossos sonhos. É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é, para nós, desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter’. Mais adiante, o poeta diz: ‘ não se pode comer um bolo sem o perder’.
Em o ‘Mal-Estar na Civilização’, um dos textos mais lidos da psicanálise, Freud aponta a mesma questão, relacionada à felicidade, ao apontar os nós no relacionamento com os outros homens (os laços sociais) como a causa de maior sofrimento humano, uma vez que a vida em sociedade pressupõe a renúncia e a não-realização de todos os nossos impulsos. Para Freud, esses impulsos que não podem ser satisfeitos acabam produzindo neuroses e infelicidade...
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.