N o filme ‘Uma vida em sete dias’, Angelina Jolie é uma repórter que não se importa em ferir a ética e as pessoas para se promover. Um mendigo, ao ser entrevistado na rua por ela, faz várias previsões para os próximos dias e, em “off”, diz que ela só tem mais sete dias de vida. Ela não dá bola, mas, ao perceber que todas as previsões dele se concretizam, se desespera e... Assistam.
A Veja de 3/10/07 traz matéria sobre o americano Randy Pausch, de 46 anos. Com uma doença terminal, ele disse numa palestra: ‘Se eu não pareço tão deprimido quanto deveria, desculpem desapontá-los’. Com menos de seis meses para viver, Randy demonstra mais alegria do que muita gente sadia.
O policial pode morrer por estar sem colete; o motociclista, pela falta do capacete; o bandido, porque os “concorrentes” lhe “puxam o tapete”; o adolescente infrator, porque lhe descem o porrete. Pode-se morrer ao levar o bote de uma cascavel, pela explosão de uma bomba num aparente pacote de papel. Morre-se por acidente, nas ferragens do caminhão que corta a frente; expira-se de repente, num ataque agudo, ou então pelo evoluir mudo da doença crônica, que mata lentamente. Enfim, a gente morre porque é mortal, ponto final. Não importa a causa, o motivo; o certo é que para morrer basta estar vivo. Quando se perde alguém querido, situação que todos estamos sujeitos a vivenciar, deve-se manter o sentido da vida e, como consolo, saber que a nossa hora também vai chegar.
Disse Benjamin Franklin: ‘Nada é mais certo neste mundo do que a morte e os impostos’. No Brasil isso vale mais do que em qualquer outro lugar. Penso que existem várias mortes além daquela que manda nosso corpo para sete palmos de profundidade. Veja uma fotografia sua de vinte anos atrás. É você? Não. Era.
Aquele morreu. Meu sogro parou de fumar depois de quarenta anos de vício. Passou a comer frutas, o que não fazia, e diz que agora sente o sabor, pois antes só sentia o gosto do cigarro. Ou seja, aquele que fumava faleceu, não existe mais. No quarto ano primário, designado para ler um texto em voz alta numa comemoração cívica, mal comecei e a voz foi definhando; passei a tremer feito vara verde. Um fiasco! Um orador natimorto, que teve de renascer para enfrentar novos desafios, navegar, chegar a outro porto.
No conto ‘O enterramento prematuro’, de Edgar Allan Poe, o protagonista tem uma doença cujos ataques o fazem jazer como morto horas e até dias, e por isso ele vive dominado pelo medo de, numa dessas crises, ser enterrado vivo. Sua vida, assim, limita-se a tomar precauções para que isso não ocorra. Um incidente, todavia, opera uma revolução no seu espírito; sua alma adquire tonalidade e a partir de então começa a pensar em outras coisas que não na morte, torna-se novo homem e passa a viver vida de homem. Afugentadas as apreensões sepulcrais, diz, com elas se esvai a doença cataléptica, da qual, talvez, tivessem sido menos a conseqüência que a causa.
Certos fatos da vida restringem as ações humanas de tal forma que parecem mutilar o corpo e o espírito. Mas é preciso refazer-se. Como a árvore que, depois de podada e desfigurada, cresce bonita, revigorada. A vida é uma constante mutação. A morte da primavera é o nascimento do verão. Não raro, é necessário tornar-se outra pessoa, matar em nós aquilo que prende, faz sofrer. É o morrer para dar lugar a um novo ser, abrir caminho, renascer, pisar outro chão. É diferente de morrer porque se desiste de viver. O que Poe chamou “vida de homem” eu chamaria “vida de vivo”. Sinto que estou precisando fazer-me um favor: matar em mim o que me faz ficar horas sem fim, em letargia, dominado pela tela fria do computador.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br .
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