Uma panela para cada um


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Essa história da prefeitura enviar uma tal de “guia complementar do IPTU referente a lançamentos feitos a menor” me fez lembrar de uma história acontecida numa cidadezinha próxima daqui. Dizem que lá havia um mercadinho, desses que toda currutelazinha do interior tem, com freguesia conhecida pelo nome e pelo apelido, principalmente pelo apelido. Costumavam fazer compras no tal mercadinho as famílias dos “colonos’’ que lidavam no campo e que vinham só uma vez por mês para fazer compras, cortar os cabelos e beber guaraná-de-rolha. Naquele dia, a currutela se transformava, de tanta gente andando, entrando e saindo dos comércios. A meninada corria na pracinha, os homens bebiam “rabo de galo” no boteco da esquina. Aconteceu que num desses dias o mercadinho ficou completamente lotado. O caminhão de uma das fazendas “despejou” homens, mulheres, crianças, novos e velhos na porta e todos entraram para comprar. Foi um dia de muito trabalho e boas vendas apesar da maioria delas ter sido “pendurada na caderneta”. O dono do mercadinho só teria o que comemorar, não fosse pela dúvida do final do expediente. Sabe aquelas panelas de cozinhar feijão? Daquelas que em mercadinhos de currutela só tem uma dependurada lá no canto? Então. Alguém comprou a única que tinha no tal mercadinho, só que ninguém marcou na tal caderneta quem foi. – E agora o que vamos fazer? Perguntava uma das filhas e funcionária do dono do mercadinho. – Seu pai vai nos matar! Exclamava a mãe, que na empresa exercia função de “gerente”. Coisa do interior: “nossa família unida para bem atender a sua” – O que está acontecendo aqui? Pergunta o dono do mercadinho. – A panela de cozinhar feijão, pai! – O que tem ela? Diga logo, pare de enrolar! – Alguém comprou, mas eu não me lembro quem. E não sei para quem que eu marco na caderneta. Premeditando o prejuízo e vislumbrando a oportunidade de faturar um pouco mais o experiente comerciante logo disse: – Marque uma panela para cada um dos clientes que vieram aqui hoje. Quem reclamar você desmarca, quem não reclamar é porque levou a panela. Não sei se é verdade, mas me contaram que passados os trinta dias, o mercadinho recebeu o pagamento de mais de cem panelas. Contado o causo, resta saber quantas “panelas” tinha a Prefeitura de Franca que de currutela tem pouca coisa. ALEXANDRE HENRIQUE LEONEL é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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