O Comércio publicou há dias, e repetiu depois, em textos registrais sobre fatos do cotidiano, a palavra muçarela, com ç, obedecendo à grafia dicionarizada, à forma ortográfica reconhecida pelos dicionaristas brasileiros e portugueses.
O Professor Everton de Paula, que assina há anos a seção Questões de Português na página 3 do caderno Artes deste jornal, é autor de muitas obras sobre língua e literatura. Consultor do Comércio neste assunto, posto que autoridade na área, já havia chamado a atenção de nossos revisores, repórteres e editores para o fato de o substantivo aparecer costumeiramente grafado de maneira incorreta: ora com dois zês - mozzarela -; ora com dois esses - mussarela -; nunca nas formas exatas - muçarela -, com u e ç; ou mozarela, com o e um z. Explicou que o som dos dois zês no italiano corresponde ao som do nosso ç, e assim deveríamos grafar muçarela. Resolvemos acatar a sugestão, referendados no seu conhecimento sólido de especialista. A palavra aparece assim no dicionário mais pesquisado da Língua Portuguesa, o Houaiss, também no Aurélio, no Caldas Aulette e em outros menos estrelados e nem por isso menos idôneos.
O que aconteceu a partir de então foi uma enxurrada de e-mails que todos os dias me têm tirado do sério, literalmente. É algo a ser estudado pelos lingüistas interessados na reação do falante e no seu critério para eleger o que acha certo - o verbo aqui corresponde mais do que nunca à teoria do achismo, da hipótese sem base alguma em pesquisa. X acha que muçarela é grafia de ingnorante (sic), Y diz que o Comércio, aos 92 anos de ezistência (sic) deveria se envergonhar por essa palavra em suas páginas, Z se disse chateado porque seu amigo que mora em outra cidade fez gosação (sic) com o jornal francano. Etc.
Mas nem tudo está perdido. Há também os sensatos que escrevem para dizer que, esquisitice à parte, se a forma é correta o jornal deve se pautar por ela, pois num País onde o grau de escolaridade não significa conhecimento, a mídia deve ser também didática.
O episódio que eu imaginava superado não o foi. Não há dia em que não receba pelo menos um e-mail de leitor inconformado, que se recusa a aceitar a palavra muçarela. Tenho me colocado no lugar dos contestadores e me perguntado se o uso não autorizaria outras formas. De tanto ver grafias como mussarela e mozzarella, é bem natural que o lusófono acabe por incorporá-las. São milhões de cardápios, placas, anúncios, out-doors, folhetos, filmes onde há décadas a palavra tem sido grafada de formas diferentes daquelas fixadas como norma culta pelos filólogos e lingüistas. Sabe-se que a força desses elementos é avassaladora.
Mas como fica o jornal quando faz opção pelo dicionarizado? Como escrever mussarela - a preferida de nove em dez leitores do Comércio - se esta forma não é reconhecida como ortográfica?
Procurando compreender o estranhamento, a recusa e até a raiva do leitor que não quer ler nem escrever muçarela, cheguei a uma conclusão na qual posso até permanecer solitária. Eu acredito que tenhamos de ir mais fundo nesta questão. O que eu imagino é que ela traz à baila algo muito desagradável. Não gostamos de nos ver questionados em nossas certezas mais ou menos básicas. É quase como sermos desmentidos de forma pública e oficial - como é o caso da palavra impressa, referendada pelo dicionário.
Acontece que muitas vezes permanecemos enganados durante quase uma vida a respeito de muitas coisas. Ser lembrado de repente sobre essa possibilidade é ruim. A revelação da verdade, no caso tão pequena e banal, nem por isso menos significativa, mostra nossa incapacidade de saber tudo, nossa ignorância diante de fatos que nos escapam, e é normal que assim seja. Anormal é atacar o jornal por usar uma forma correta.
Pela coerência que perseguimos e defendemos como valor, até que outra forma diferente apareça dicionarizada vamos continuar grafando muçarela. Mas torcendo para que mussarela, como quer a maioria, ganhe logo o status de verbete.
SÔNIA MACHIAVELLI é jornalista e presidente do Conselho de Administração do Grupo Corrêa Neves de Comunicação.
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