Fundos soberanos


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A idéia dos “fundos soberanos” (SWF) terá que ser melhor trabalhada, antes de ser colocada em prática - ou abandonada. Esses fundos são constituídos por parte das reservas cambiais de um país e aplicados no mercado internacional pelo respectivo Banco Central. Esta semana o Ministro da Fazenda Guido Mantega anunciou a disposição do Brasil criar o seu. As vantagens seriam a diversificação do risco dólar (cujo valor não para de cair), melhor remuneração ou mesmo aplicações estratégicas visando a internacionalização competitiva da economia brasileira. *** Montei uma discussão no meu blog (www.luisnassif.com.br) sobre o tema. As conclusões não foram animadoras. Leitores lembraram que esses fundos foram criados ou por nações exportadoras de commodities, como maneira de compensar o país quando as riquezas minerais se esgotassem; ou por países empenhados em não permitir a valorização da sua própria moeda. Lembra o leitor Igor Cornelsen que existem dois casos clássicos, de países que criaram oas fundos para impedir a apreciação da sua moeda e o sufocamento de setores da economia pela invasão dos importados: a Noruega e a Rússia. *** O problema do Brasil é que já deixou o real se valorizar. Assim, o fundo seria constituído com capital especulativo. Lembra o leitor André Araújo que “o Estado brasileiro já tem uma instituição especialmente bem desenhada e estruturada para financias projetos de longo prazo, o BNDES, uma estrutura que poucos países têm e que é o canal pronto e preparado para fazer aquele que se supõe que um fundo soberano possa fazer”. Usar reservas líquidas, com capital especulativo caro, seria incompatível com fundos de longuíssimo prazo ou até perpétuos, como são esses SWF. *** Igor acrescenta que, enquanto houver dívida pública brasileira pagando 170 pontos a mais (1,7 ponto percentual ao ano) do que as taxas básicas dos países desenvolvidos, os recursos deveriam ser basicamente utilizados para o resgate da dívida. *** Tem um agravante, que é a facilidade com que tais fundos se prestam a escândalos. Como o preço das dívidas do mercado internacional flutua bastante, abriria espaço para que brokers pouco escrupulosos, ou vendas efetuadas através de empresas privadas de investimentos, permitissem ganhos de até 2%, sem a possibilidade de provar a fraude. Anos atrás, o IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) publicou no seu balanço a relação de investimentos internacionais. Nele, constava o DFA (títulos da dívida brasileira em atraso). Para ‘turbinar’ seu balanço, o IRB contabilizou por um preço médio muito acima daquele praticado no mercado. *** São alertas relevantes se se quiser avançar nessas idéias. Aliás, antes de iniciado o processo de apreciação do real, quando já estavam delineadas as altas expressivas nas cotações de commodities, teria sido o momento de se criar um fundo que ajudasse a enxugar o excesso de dólares e servisse, ao mesmo tempo, para financiar operações estratégicas no exterior. OS FLUXOS EXTERNOS - 1 Em setembro, o superávit do balanço de pagamentos brasileiros foi de US$ 607 milhões, contra US$ 3.874 milhões no mês anterior. Parte foi em função de uma certa valorização do real, que segurou as remessas para pagamentos de lucros, dividendos e juros. O investimento direto, investimento de portfólio e outros investimentos caíram de US$ 4,5 bilhões em agosto para US$ 889 milhões em setembro. OS FLUXOS EXTERNOS - 2 Segundo o IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), enquanto o desempenho dos investimentos de portfólio melhorou na passagem de agosto para setembro (superávit de US$ 1.602 milhões e de US$ 2.490 milhões, respectivamente), o saldo líquido dos ‘Outros investimentos’ passou de um resultado positivo de US$ 897 milhões em agosto para déficit de US$ 3.138 milhões em setembro. OS FLUXOS EXTERNOS - 3 No caso dos chamados investimentos de portfólio, o maior volume foi em títulos de renda fixa, saltando de US$ 1.246 milhões em agosto para US$ 2.125 milhões em setembro. Entrou alguma coisa para Bolsa, que saiu de um saldo negativo de US$ 50 milhões em agosto para um US$ 691 milhões positivos em setembro. Essa balança continuará nos próximos meses, com a decisão do BC de manter juros elevados. OS FLUXOS EXTERNOS - 4 No caso das emissões de títulos no exterior (mediante bônus, notes e commercial papers) os efeitos da crise internacional foram nítidos. Caíram de um superávit de US$ 406 milhões em agosto para um déficit de US$ 326 milhões em setembro. No último item da conta, ‘Outros Investimentos’, houve um grande déficit em setembro, em função da saída líquida de recursos de prazo curto.

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