Apologia à praça


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U m dos segredos para o encontro do bem-estar está na simplicidade da vida. Engana-se quem pensa que é preciso ser abastado para gozar digno lazer nessa nossa trajetória, às vezes monótona e mal temperada que insistimos em fingir que anda bem. Hábito saudável que merece ser cultivado e cada vez mais resgatado é o velho, prazeroso e econômico passeio na praça, que tem o poder de nos remeter ao mais puro sentimento de contentamento, derivado de algo simples e acessível a todos. A sociedade parece estar cada vez mais fechada, protegida e desconfiada, distanciando das relações de rua que poderia oferecer maior liberdade, oportunidade de se conhecer gente, de poder falar alto sem se preocupar com o que os outros vão pensar, dar gargalhadas gostosas em público, brincar com os filhos, passear de bermuda e chinelo despreocupadamente, sentindo a mesma brisa fresca que sentiram os nossos antepassados numa praça como a Nossa Senhora da Conceição, amiga fiel sempre a nossa espera, palco de histórias de infância, sonhos, amores e de tantas lembranças marcadas em muitos corações. Sentar no banco da praça em pleno domingo à noite pode ser libertador, com direito a escolha de ambientes extremos. De um lado a tranqüilidade para um bom papo ou reflexão; do outro, a possibilidade de observar de tudo um pouco: o pipoqueiro que religiosamente está a postos estourando os grãos e espalhando o delicioso cheiro no ar; o colorido do algodão-doce em vários pontos dando realce no cenário; bolas plásticas enormes chutadas por pequenos-cidadãos que ainda buscam se equilibrar sobre as pernas; e de casais que aproveitam o momento para harmonizar e enriquecer a relação. Observando essas coisas é possível extrair conclusões interessantíssimas que muitos não atentaram ainda: somos latinos-miscigenados, gente alegre por natureza e, quando freqüentamos a praça, que não é um local de freqüência coletiva mais elitizada (aqueles com lojas e praça de alimentação), não temos que ter preocupação com vestuário razoável e nem bom dinheiro no bolso. Não é, definitivamente, um lugar onde se “deva” exercitar etiqueta para ser aceito como “normal”, como nos ambientes projetados artificialmente para o consumismo, onde jamais se poderá fabricar a emoção genuína do que é simples e ingênuo, como na praça. Enfim, somos pessoas que não podem permitir que nossa cultura e nosso jeito peculiar de viver sofra influências transformadoras que venham a nos sufocar, roubando a alegria prazerosa que podemos encontrar num dos mais antigos pontos de reunião pública de nossa comunidade. Ser freqüentador da praça satisfaz a alma, nos faz exercitar a liberdade da cidadania com independência. A praça iguala homens, mulheres, jovens e crianças, cenário ideal de nossas efêmeras histórias. RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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