Entre o amor e o ódio


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Se você é extremista, acha que não tem meio termo, é tudo ou nada, oito ou oitenta, que ou ama ou odeia, que entende que uma linha tênue separa o amor do ódio, convém repensar. Segundo o filósofo Aristóteles, ‘a virtude está no meio’. Numa estrutura piramidal ou cônica, por exemplo, o ponto mais alto é o que se ergue do centro. No ‘Timeu’, Platão diz que a esfera é a figura mais perfeita e uniforme porque todos os pontos da superfície eqüidistam do centro. Em certos países em que o futebol é tradicional, ser vice-campeão é o mesmo que nada. Espírito esportivo é coisa de perdedor. Os jogadores da seleção argentina, após a derrota da Copa América, tiraram a medalha do peito depois de recebê-la, com desdém ao segundo lugar . Desprezaram a boa educação, o mérito de quem os derrotou. Menosprezaram a si e ao país que representavam. Mandaram às favas a consciência - se é que a conhecem - de que no futebol, como na vida, o importante é competir. Vejo casais que se separam e o planeta fica pequeno para eles, tamanho o ódio recíproco. Não sobra nada do antigo amor. Há até quem defenda que se pode matar por amor! O extremismo nestes casos é doentio. O saudável é buscar o centro, o espaço que separa um lado do outro, que, vale lembrar, não é pequeno. Quem é radical só enxerga as pontas, e aí está o erro. Existe o meio, o ‘entre’. Entre a sombra e a luz tem a penumbra. Entre os tons forte e fraco há os suaves. Entre a certeza e o desconhecimento há a dúvida. Entre a inércia e a corrida tem a caminhada. Entre o grito e o sussurro há outros modos de falar. Entre a grosseria e a indiferença há a simpatia. Entre o ontem e o amanhã está o hoje. Entre o amanhecer e o escurecer tem um dia. Existe limite até no mundo do crime. Criminosos sexuais, por exemplo, são hostilizados nos presídios pelos outros presos. Num filme policial, o bandido coloca bombas em certos locais e dá um tempo para que os tiras as encontrem e impeçam a explosão; suspeitou-se de que uma delas estava numa escola primária. Depois de todo o trabalho com a retirada das crianças se descobre que foi alarme falso. ‘Não havia bomba lá?’, pergunta o tira ao bandido. Este: ‘Claro que não; eu sou bandido, não um monstro’. Separando extremos tem o meio. Pode haver conteúdo entre o vazio e o cheio. Entre inverno e verão há outono e primavera. Uma grande esfera separando os pólos norte e sul. Quantas cores não há entre o amarelo e o azul? Há beleza entre o sublime e o disforme. A paz pode ser o meio termo entre a alegria e a tristeza. A relação com o dinheiro não pode ser guiada nem pela prodigalidade nem pela avareza. Existem outras sensações que não volúpia ou dor. Além do frio intenso não há só o imenso calor. Há outros sabores além do doce e do amargo. Entre o “sim” e o “não” há o “depende”, o “talvez”. O suficiente pode estar entre a abundância e a escassez. A lucidez está situada entre a cegueira e a alucinação. A boa criação dos filhos está no caminho que separa a omissão da agressão. A luta é a escada entre o sonho e a realização. Entre o amor e o ódio há espaço suficiente para amizade, cordialidade, tolerância, respeito, paz. Pensem nisso os fanáticos em geral, além dos casais que se separam e ficam guerreando entre si, com os filhos na linha de tiro. Passar do amor ao ódio é coisa de espírito primitivo. Entender isso e, sobretudo, pôr em prática é o meio para uma coexistência muito melhor. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’ – e-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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