Quando cheguei à adolescência ouvi dos meus pais vários conselhos sobre a importância de ser e ter amigos confiáveis, honestos, justos e principalmente com princípios morais e éticos. Na verdade, naquela época dizia-se que era preciso ter amigos que tivessem “educação de berço”. Minha avó, sempre atenta e cuidadosa com os netos não se cansava de dizer “diga-me com quem andas que digo quem tu és”. Vivi meus “anos dourados” assim, preocupado em não decepcionar meus pais, procurando sempre amigos nos quais pudesse confiar.
Essa questão de amizade é mesmo uma coisa interessante. Tem uma música que diz “tinha amigos com defeitos pra terceiros, mas não pra mim”. Às vezes é assim mesmo. A gente confia tanto no amigo que não consegue enxergar nele nada que o desabone, nada que coloque em risco sua boa reputação.
Vejamos por exemplo o caso da amizade entre o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o presidente Lula. Não é preciso ser um especialista em política internacional para afirmar que Lula e Chávez nutrem uma amizade com todos os requisitos que se possa exigir.
Tem até umas briguinhas de vez em quando mas que sempre terminam num forte abraço e numa boa gargalhada. Coisa de amigo, amigo mesmo. Então se são amigos não há com que se preocupar, certo? Errado.
Lembre-se do que dizia minha avó “diga-me com quem andas que digo quem tu és”. Pois bem: na terça-feira da semana passada o amigo do presidente Lula reafirmou que irá “desmontar progressivamente” o conceito da propriedade privada na Venezuela. De acordo com alguns jornais brasileiros, Chávez teria dito que o conceito de propriedade privada não tem lugar dentro da “revolução socialista do século XXI”. Só para lembrar, Chávez é o mesmo que expulsou funcionários da Petrobrás da Venezuela e tomou posse das instalações petrolíferas brasileiras naquele país.
Chávez também convocou assembléia nacional constituinte que realizou significativas mudanças na constituição venezuelana, abrindo caminho para um possível governo vitalício dele mesmo, por meio de referendos populares. No caso das propriedades privadas vai a referendo popular venezuelano um texto propondo cinco tipos de propriedade: a social, pertencente ao povo e controlada pelo Estado; a coletiva, pertencente a grupos sociais ou comunitários, mas sob controle do Estado; a mista, com participação do setor privado e do Estado, mas sob o controle deste último; a pública, administrada pelo governo; e finalmente a propriedade privada propriamente dita, que poderá ser confiscada quando afetar os direitos de terceiros ou da sociedade.
Como assim? Propriedade privada que poderá ser confiscada quando afetar os direitos de terceiros ou a sociedade?
Ao que parece, o conceito de propriedade privada na Venezuela representará uma instituição frágil e pouco viável. Isso tudo pode parecer muito sem propósito, afinal de contas é lá na Venezuela, país que provavelmente muito dos brasileiros não sabem nem onde fica. Então porque investi meu tempo e o do leitor nesse tema? Porque sei que minha avó tinha razão!
ALEXANDRE LEONEL é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca.
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