Vejo-me pouco no espelho


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V ocês sabem a origem e importância do espelho? É proveniente da civilização egípcia e seu valor está diretamente relacionado à vaidade, ao olhar, ao avaliar e ao se conhecer. Esse paralelo é perfeitamente cabível a um assunto tão complexo da sociedade atual: a invisibilidade do negro na mídia. ‘Se eu não me vejo, eu não sou nada; se eu não sou nada, ninguém se importa comigo’. ‘A invisibilidade é um dos maiores instrumentos de perpetuação do preconceito e do racismo no Brasil.’ A mídia é um aparelho ideológico controlado por pessoas fincadas em valores eurocêntricos que atribuiu para si mesma inúmeros adjetivos: formadora de opiniões, manipuladora da cultura de massa, lavagem cerebral... Devido à escravidão de ontem e a falsa democracia racial de hoje, a raça negra continua vítima de um processo de inferiorização. A postura da mídia é ambígua: não se responsabiliza pelos erros históricos, legitima estereótipos negativos e imagens degradantes. Em clima de gratidão o ‘afro conveniente’ estufa o peito e com sorriso no rosto declama: estamos na mídia! Em contrapartida, a visibilidade positiva do negro nos meios de comunicação permite aos nossos descendentes o reconhecimento de líderes, representantes, heróis e mitos. Favorece também a busca e o encontro com o próprio ‘eu’ e/ou identidade esclarecida. Se o negro não for estimulado a conhecer suas raízes ele terá orgulho de que e de quem? Há quem diga que na teledramaturgia houve grandes mudanças... Acredito que estamos dando os primeiros passos. Há sim uma visível prosperidade de ascensão social no requisito música e esporte. Há, porém, desafios maiores a serem resolvidos: a invisibilidade do negro em amplos segmentos sociais, grandes empresários, juízes, físicos nucleares etc. Temos o poder de transformar essa realidade vigente. A passos lentos sentiremos o resultado de uma transformação social no momento em que cada afro-descendente infiltrado no poderoso espelho, reproduzir positivamente educação, cultura e instrução. Assim, as gerações futuras terão motivos e direitos para se espelhar. O Brasil, como segunda maior nação negra do mundo, tem muito o que fazer. É preciso recrutar um exército de cabeças conscientes e empenhá-las a desenvolver trabalho de proximidade entre os nossos iguais, respeito às diversidades e justiça no combate às desigualdades. E que esses caminhos e outras alternativas virem hábito em nossas vidas. Daí perceberemos a preciosidade que somos. Axé. LUCIANO TARCÍSIO FERREIRA (Preto Cria) é estudante de História e vocalista do grupo de rap Visão Consciente.

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