Nós brasileiros temos que tomar um balde de água fria no rosto e despertar para a situação crítica em que está o País. Seria possível desmembrar este artigo em vários outros mais específicos, porém o objetivo é traçar uma síntese das amarguras que somos obrigados a mastigar vivendo no Brasil e da justificativa de que haja tanta gente deixando definitivamente o País ou envergonhando-se de ser brasileiro.
O percurso inicia-se no roubo, pichação e depredação de bens públicos (monumentos, orelhões); furto de fios de cobre (até de cabelo já houve casos; qual é mais esdrúxulo?); serviço de conexão à Internet que surgiu com o nome de iG com a proposta de ser grátis, mas no decorrer dos anos passou a cobrar dos seus usuários; abandono de pacientes em hospitais e atraso em salas de espera; empresas que pedem dados completos do cliente, amiúde desnecessários para o serviço prestado, com o objetivo de depois vendê-los às empresas de marketing para importunar as pessoas em sua privacidade. É um cenário também de muitas contradições e que prolifera sobretudo nas médias e grandes cidades.
Caso grave presenciei quando questionei num supermercado sobre o que fariam com uma caixa gigante de pães de forma vencidos que estava no chão e me disseram que ‘voltariam para troca’. Tanto desperdício, e ainda acreditamos no combate à fome dentro de um sistema que realiza práticas nos moldes do Convênio de Taubaté de 1906, quando o excedente de café era comprado pelo governo e queimado para manter o preço e o ganho dos produtores. Nossas instituições prostituem-se, como as de regulação do tráfego aéreo, das rodovias e dos direitos dos consumidores, visto que mais parecem negociar tacitamente com as grandes empresas maneiras de explorar a população do que protegê-la de abusos. As torpezas e malandragens têm-se institucionalizado.
Nada adianta reclamar em praças de pedágio que o valor cobrado só aumenta e abusa se tudo o que o funcionário poderá dizer é “eu só cumpro o meu serviço”. Privatizar rodovias sem oferecer alternativas de uso público aos cidadãos é um descumprimento constitucional, uma vez que também o Estado nos onera com impostos recolhidos para este fim, mas não temos um retorno. Há toda uma rede burocrática que inibe nossa relação direta com os responsáveis, cujo mecanismo é usado por empresas como a Telefônica, que informatizou praticamente toda sua interação com o cliente de tal forma que os problemas rolam, passam de um atendente a outro, e nunca ninguém resolve.
Num País tão mal administrado, resta-nos a posição de vítimas, por um lado, porque muitos nos querem tirar dinheiro a qualquer custo e de todo jeito, e, por outro, de incapazes, porque não temos posição de poder para dar um basta.
Fica difícil viver num País em que a honestidade e a justiça são a exceção num lamaçal do tirar vantagem de tudo. O ritmo do Brasil alcançou o sincronismo que inibe a população de sugerir mudanças dentro da sua possibilidade e autoriza a espoliação da mesma por práticas que em país sério seriam motivo até de revolução, tradição que não temos aqui.
Todo percurso extenuante logo faz acabar o fôlego. O nosso tem sido grande demais.
BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em Relações Internacionais pela UNESP
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