Don Trujillo


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Em texto recente sobre um assalto que sofri, lembrei de Don Facundo, um boneco de ventríloquo que nos anos sessenta e setenta foi a alegria da garotada na televisão. Um dia o boneco foi roubado e jamais reapareceu. E o ventríloquo sumiu. Graças a alguns leitores - entre dezenas que me escreveram e aos quais agradeço - remontei um pouco de sua história. O Neco Ribeiro, que é palhaço profissional, lembrou que o boneco substituto do Don Facundo chamava-se Don Pedrito. Mas não tinha a mesma graça. O Marco Piquini observou que Don Facundo era “meio safadão”, uma espécie de versão em madeira do Zé Trindade, humorista famoso na época. Mas foi Marcílio Dias quem remeteu detalhes preciosos: “Eu conheci Don Facundo pessoalmente. Quando estudante, em Jaboticabal, (SP) na altura dos anos sessenta, conheci Carlos Trujillo (esse era o nome do ventríloquo). Ele apareceu do nada. Creio que procedente da América Central. Morou no Hotel Municipal de Jaboticabal. E não era capaz de fazer a voz do boneco sem tê-lo em operação. Trujillo tinha também uma caveira, a quem emprestava sua voz: Dona Sinforosa que, à maneira de Franquito (cantor guri, de sucesso, naqueles anos), cantava ‘Donde estará mi vida?’ Era tudo que uma caveira gostaria de saber! Não há muito tempo, com tristeza, li que Trujillo havia falecido.” Antônio Mier escreveu: “O ventríloquo nunca mais foi o mesmo. Além de perder o boneco, perdeu a dignidade e acabou se entregando à bebida. Meu pai era enfermeiro em um hospital e me levou para conhecê-lo. Depois do sumiço do boneco ele ficou arrasado, não teve mais forças para lutar contra o vício.” Fascinante! Um estrangeiro misterioso que surge do nada, com uma ligação mágica com um boneco que desperta seu talento. Um dia o boneco é roubado e a mágica desaparece, fazendo com que o ventríloquo termine seus dias em desgosto. Parece enredo de novela. E me remete a várias reflexões... A uma festa em Pedra Azul, por exemplo, divisa de Minas com a Bahia, em 1976. Animada por um sanfoneiro, rapaz pobre, que toca com uma gana de dar gosto. São dez da noite e ele começou a tocar às sete. Seus antebraços, no ponto onde encostam no instrumento, estão vermelhos. E o bichinho tocando... Apaixonado por seu Don Facundo, o acordeão. E então vem a mensagem de meu amigo Hans Hein, no fórum de meu site: “Luciano, o Don Facundo está ‘em’ você, não foi roubado, apenas vai ter que mudar, provavelmente, uma opinião, isto não é tão difícil assim”. É verdade, caro Hans. Todos temos um Don Facundo. Que pode ser qualquer coisa que tenha o poder de despertar em você uma força mágica que te faz dizer: estou vivo! Essa tal “coisa”, quando é um objeto ou instrumento, é apenas um símbolo. Uma inspiração. O Don Facundo verdadeiro estava dentro do ventríloquo. E ficou lá para sempre, preso, pois talvez Carlos Trujillo não tenha percebido que o boneco era apenas um gatilho. Mas... só um gatilho? Será tão simples assim? Claro que não. Bonecos de ventríloquo, saxofones, guitarras e acordeões existem aos montes. Mas só alguns têm alma. A alma que foi roubada de Don Trujillo. Felizmente a minha continua aqui. LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.

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