‘Puxa’ que faz a diferença


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Ao lado do marido, João, Nelly mostra seu produto de maior sucesso: o puxa
Ao lado do marido, João, Nelly mostra seu produto de maior sucesso: o puxa
Há 33 anos, as habilidosas mãos de Nelly Müller Sanches, 65, transformam leite de coco, rapadura, chocolate, leite condensado e outros ingredientes em balas feitas em formato de palitos. Elas medem 15 centímetros, ficam em tons beges mescladas de marrom (chocolate) ou rosa (morango) e esticam bastante na hora de serem saboreadas. Nelly faz os famosos “puxa-puxa”, que conquistaram o paladar francano e permitiram a ela e ao marido, João Sanches Del Rio, 75, criar seis filhos, construir a casa própria e passear pelo Brasil e exterior. Sempre unidos, eles venceram. O casal tem ponto fixo para os negócios. Desde 1974, comercializam os doces no calçadão do Centro, na esquina das ruas Monsenhor Rosa e Voluntários da Franca. A história que transformou os puxas em tradição nasceu das dificuldades do casal para sustentar as seis crianças. Os dois moravam em São Paulo. Em 1973, João, que é francano, estava desempregado e decidiu se mudar com a família para Franca. “Chegamos sem nada. Ele já estava com mais de 40 anos e tinha dificuldade de conseguir serviço. Passamos fome. Vou falar a verdade, filha, cheguei a pedir esmola e comida para meus filhos”. A alternativa encontrada pela mãe para alimentar as crianças foi reviver seu passado. Na infância, sua madrasta fabricava pirulitos de açúcar e ela, aos 7 anos, vendia-os para ajudar em casa. “Sabia a receita e comecei a vender em Franca. A gente estava passando muita dificuldade para pagar aluguel e comprar comida”, disse. Durante as vendas dos pirulitos caseiros, o paladar dos francanos despertou para outro doce. Os clientes sempre pediam a Nelly o puxa. “Nem sabia o que era esse tal de puxa e comecei a perguntar para as pessoas que moravam aqui como fazia. Juntei uma dica daqui, outra dali e criei uma receita de retalhos, com a melhor parte de cada”. Nelly disse que existem muitos segredos para fazer as balas ficarem no ponto certo, coloração e gostos perfeitos, mas ela não os revela. Ela não gosta nem de citar os ingredientes que usa. A vendedora só se dispõe a contar um deles: “o amor”. “Faço tudo com muito capricho e carinho, como se fosse para meus filhos comerem”. Sem detalhar as etapas de produção, dona Nelly mostrou como a receita é demorada e trabalhosa. São em média quatro horas diárias dedicadas pelo casal apenas na confecção dos doces. “Tem de ferver por mais de uma hora, esperar esfriar, ‘bater’ (puxar até atingir o ponto), enrolar, cortar e embalar. Fazemos tudo todo santo dia para vender sempre fresquinho”. Antes, ela “batia” os puxas durante o preparo, mas dores nos braços a impediram de se dedicar a essa etapa. Agora, o marido e um dos filhos se encarregam disso. Nelly já enjoou das balas e só experimenta para saber se está no ponto certo. Os filhos e 22 netos, por suas vezes, se incumbiram da “difícil” tarefa de saborear os puxas. “Eles adoram. Se deixar, comem todos”. DIA-A-DIA O casal começa o dia às 7 horas e, até as 11 horas, tem de estar com as balas, cocadinhas e amendoins, que também preparam e vendem, prontos na bandeja para oferecer à clientela. João toma ônibus primeiro e cuida das vendas no Centro, no ponto próximo à loja matriz do Magazine Luiza. Dona Nelly segue mais tarde para trabalhar. “Cuido dos serviços de casa até 14h30, quando pego ônibus para passar de casa em casa e nas lojas para vender para meus clientes”. Com passos lentos por causa das fortes dores que sente nos pés, ela percorre a Avenida Presidente Vargas e Bairro Cidade Nova num dia, Estação no outro e demais regiões durante cerca de três horas por dia. Depois, segue para o Centro onde encontra o marido para irem embora. A rotina se repete de segunda a sábado, mas já foi mais intensa. “No começo foi bem difícil. Trabalhávamos sem folga, de segunda a segunda, em feriados... Vendia na porta do ‘Fernando Costa’, da Francana, do Pedrocão, mas nunca desanimei. Estou aqui com prazer. Adoro estar aqui, conversar com os amigos, conhecer gente nova, ver o movimento”, disse João Del Rio. O esforço deles rende R$ 400 em média por mês. O valor complementa as aposentadorias dos dois (R$ 760). O casal faz contabilidade para controlar o orçamento e só vende à vista “para evitar calotes”. Cada puxa custa R$ 0,50 e os demais doces, R$ 1. “Todos vendem bem, mas os puxas são os campeões”, disse o vendedor. [FOTO2] POR QUE VENDER? O casal comemora as conquistas alcançadas com a venda das guloseimas. Depois de 17 anos com “puxa” daqui “puxa” dali, conseguiram construir a casa própria com cinco cômodos no terreno herdado da mãe de João. O casal mora no Jardim Paulistano I. Os seis filhos, hoje com idades entre 36 e 46 anos, estão estudados e casados. Um deles se formou em História pela Unesp de Franca. “Criamos nossos filhos. Foi com simplicidade, mas demos a eles uma vida íntegra. Além do mais, fazer e vender puxas é uma terapia; algo que complementa nossa aposentadoria e nos ajuda a ter recursos para passear e distrair”, disse Nelly, emocionada. Ao menos três vezes por ano, João e Nelly “somem” do ponto de venda no Centro. Sim, o casal tira férias com direito a passeios, de preferência pelo litoral. “Meu marido adora praia. Não sou muito fã, mas o acompanho”. Da última vez, estiveram por uma semana em Santos, onde se hospedaram num hotel. O próximo destino deve ser o exterior. A vendedora descobriu que tem uma irmã que mora na Áustria e quer visitá-la. “Ela nos convidou. Daqui uns quatro anos, vamos fazer essa viagem. É um sonho que quero realizar”. O casal já viajou para outros países, como Argentina, Bolívia e Paraguai. PONTO FIXO, SIM Desde que encontraram nos doces uma forma de sobreviver, há 33 anos, os vendedores escolheram o ponto da Rua Monsenhor Rosa com a Voluntários da Franca para formar freguesia. No começo, os filhos ajudavam a vender, mas quando saíam com a bandeja com balas pela rua apanhavam ou eram assaltados por meninos mais velhos. “Quando começaram a agredir meus filhos, pedi para a dona Luiza (Donato Trajano, fundadora do Magazine Luiza) deixar eles ficarem na marquise da loja para terem mais proteção enquanto eu circulava atrás de clientes. Ela permitiu e sempre nos apoiou demais. Quero agradecer a ela”, disse ela. Hoje, eles montam um carrinho com os alimentos em frente à entrada principal da loja. “Esse ponto é muito bom, movimentado e aqui a gente fica bem informado. Ficamos sabendo de muitas notícias e fazemos muitas amizades”. Eles não pretendem sair de lá. Quem agradece a decisão é o vendedor Paulo Rodrigues, comprador assíduo dos doces. “Eles não podem sair daqui. Pelo menos uma vez por semana compro cocadinha ou puxas para mim e minhas duas filhas. São deliciosos”, disse ele, que trabalha numa loja ao lado. Para dona Nelly e João Sanches, é um privilégio saber que suas receitas têm se perpetuado e conquistado várias gerações. “O que mais gosto aqui são as amizades que fiz. Algumas de mais de 30 anos. Tem gente que vinha comprar o docinho pela mão da mãe e hoje traz o filho para comprar. É bonito de ver”, relatou o animado João. Nelly e João não têm data para parar com as vendas. “Venderemos até quando Deus quiser, nos der saúde”, disse ela. Quando decidirem parar, os fregueses não ficarão sem. “Esse doce é especial para a gente. Quando a gente for parar, gostaria até de ensinar alguém a fazer, para isso não acabar....”, disse o marido. É esperar para saber quem será o privilegiado que terá a receita secreta revelada.. SERVIÇOS Confira no site do Comércio (www.comerciodafranca.com.br) o vídeo com a entrevista de Nelly Müller Sanches e confira na rádio Difusora a matéria sobre os puxas. A reportagem entrará no ar hoje no Jornal de Domingo às 8 horas e amanhã, no Jornal da Manhã, transmitido entre 6 e 8 horas.

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