Osso duro de roer


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Um soco no estômago e um tapa na cara. Foi assim que me senti ao ser ejetada, na quarta-feira à noite, da sala do cinema após assistir ao filme Tropa de Elite. Li críticas, reportagens e a sinopse do filme antes ir ao cinema, mas nenhuma leitura deixa você preparado para assistir ao desfile da realidade cronicamente inviável em que estamos inseridos e muitos não percebem. Tropa de Elite escancara a violência e a corrupção no tráfico de drogas, os métodos repressivos do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro), o conluio dos usuários, o desnorteio das políticas públicas. Sob a direção de José Padilha, a câmera nervosa, com direito a esguicho de sangue, e a fotografia escura complementam o mal-estar que é causado pelo longa. Protagonista do longa e narrador da história, capitão Nascimento (excelente atuação de Wagner Moura) é um policial do Bope que está cansado de “ir para a guerra”. No seu dia-a-dia, ele tortura, mata, desrespeita e, claro, tenta justificar suas ações, principalmente por ser incorruptível. Para sair do batalhão, no meio da operação pacificar os morros enquanto o papa João Paulo II visitava o Rio, ele tem de encontrar um substituto. Cruzam o seu caminho Neto (Caio Junqueira) e Matias (o estreante André Ramiro). O primeiro, impulsivo, não consegue lidar com a corrupção que assola a polícia. Matias faz faculdade de direito e sonha em se tornar advogado. Enquanto Nascimento tenta encontrar seu sucessor, o filme mostra como são perversas as relações entre polícia, traficantes, governo e sociedade. Não há glamourização de bandidos nem de policiais, não há facismo, não há apologia ao crime, muito menos a defesa da tortura. É simplesmente a exposição de ações-reações complexas. Luiz Eduardo Soares, antropólogo e co-autor do livro Elite da Tropa -escrito simultaneamente ao projeto do filme -, defende o enredo. “O filme não justifica a tortura. O personagem principal é desconstruído pelo pânico. As atitudes que ele tem destroem o discurso”. Embora a história se passe no Rio de Janeiro e a realidade de uma cidade do interior de São Paulo, como Franca, seja bem diferente - e mais tranqüila -é fato que corrupção e o violência estão enraizadas por toda a parte, em menor ou maior proporção. A estudante Cíntia Richel, 16 anos, achou que o longa mostra a realidade da polícia. “Não acho que tem exageros no filme, tem cenas fortes, mas é a realidade”. Seu namorado Cássio Fernando SIlva, 17, vai além. “Foi um dos melhores filmes que já assisti na minha vida”. Se tem gente que acha que o filme está recheado de violência, o propagandista Edson Marighela Bomini, 43, acha que a realidade é pior e que o método do Bope, por enquanto, é eficaz. “Eu já li algumas coisas sobre a ação do Bope e o que eles fazem é bem pior do que o que é mostrado no filme. Mas é uma questão social, um problema grande. Não deve ser fácil combater traficantes, tem que ser daquele jeito mesmo, porque os bandidos têm medo do Bope. Mas os governantes tinham que achar uma solução para que os policiais não precisassem ser tão violentos”. AUTORIDADES FRANCANAS “Quando a família, a educação e o governo falham, aí a polícia entra em ação para tentar remediar e punir. Mas a polícia teria que ser o último recurso”. Assim o delegado da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e comandante do GOE (Grupo de Operações Especiais) de Franca, Vanir José da Silveira Júnior, define o trabalho da instituição. Ele ressalta que a realidade de Franca é bem diferente da capital carioca. “O treinamento para grupos especiais acontece mas não daquela forma, que o policial tem que comer comida do chão com as mãos, mas o treino é forte para que os policiais consiguam agir sob pressão, estresse, em situações de alto risco”, explica o delegado. O comandante da Força Tática da PM de Franca, capitão Alexandre Wellington de Souza, disse que não se pode levar o filme como base de atuação policial. “É uma produção cinematográfica muito boa, mas mostra conceitos institucionalmente reprovados”. Segundo o capitão, existe um pouco de sensacionalismo. “Do ponto de vista operacional, não representa a nossa realidade, de tropas especiais daqui de Franca. Aqui nos pautamos no fiel e exato cumprimento da lei. Nosso lema é o compromisso com a defesa da vida, da integridade física e da dignidade da pessoa humana”.

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