Pelas burras do príncipe


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A capacidade voraz dos seres humanos investidos do poder público para arrecadar é incontestável. Para especialistas, os governos arrecadam bem e aplicam mal. Aliás, sabe-se, uma parte desse dinheiro se reserva para práticas nada salutares, pois a democracia tem o seu preço. Um conto antigo nos ajuda a compreender os erros que acontecem nos bastidores da política contemporânea ao tratar da lição aprendida por um secretário do Tesouro que deixou de observar regras simples sobre a arte de bem governar, levando seu príncipe à ruína, tornando-o algoz de seu próprio povo. Ele não era um homem deslumbrado com o poder; apenas descuidado ao fazer uso dele. Suas decisões eram consideradas como intempestivas e embaraçosas, verdadeiras extorsões ao povo ele determinava, altos impostos “reajustados” com justificativas pouco convincentes, a fim de continuar enchendo as burras de seu príncipe para deixá-lo feliz e cheio de planos. À medida que a obsessão crescia no coração do servidor real por mais e mais recursos para o fortalecimento governamental, ele não percebia que a cegueira política que o acometia fazia dele transgressor de regras vitais para a manutenção do Estado. Ao invés de auxiliar o seu senhor a manter o equilíbrio que asseguraria a sustentabilidade do reino, acabava por influenciá-lo a arriscadas decisões que o tornaram refém de situações adversas e irreversíveis. Certa feita o secretário-tesoureiro foi abordado por um sábio que lhe disse palavras que lhe causaram calafrios. Já no final do expediente retornou à sua fazenda e talvez inspirado pela vista privilegiada que seus olhos contemplavam, como num estalo, recobrou na memória que aquele velho sábio evocava Maquiavel para exortá-lo. O espanto tomou conta de seu semblante, seu corpo permaneceu paralisado por um momento, até que seu pensamento concluiu: eis que errei nas orientações ao príncipe, conseqüências virão, danos serão inevitáveis e certamente não escaparei de suas mãos iradas. De posse do livro de cabeceira dos governantes - O Príncipe, de Maquiavel; o tesoureiro atormentado por seus demônios-interiores confrontava, como num diálogo silencioso, todas as suas decisões (avalizadas e postas em prática pelo seu senhor) com os ensinamentos maquiavélicos que poderiam vaticinar o destino daquele governo. E iniciando sua auto-sabatinagem: - Meu senhor realizou e ainda realizará muitas extravagâncias financeiras, por isso a alta carga de impostos ao povo; Maquiavel aconselhava: “(...) de forma tal que um príncipe assim procedendo consumirá em ostentação todas as suas finanças e terá necessidade de, ao final, se quiser manter o conceito de liberal, gravar extraordinariamente o povo de impostos, ser duro no fisco e fazer tudo aquilo de que possa se utilizar para obter dinheiro”. - Meu senhor foi conduzido pelo povo ao poder e o oprime com altos impostos; Maquiavel ensinava: “Deve, pois, alguém que se torne príncipe mediante o favor do povo, conservá-lo amigo, o que se lhe torna fácil, uma vez que não pede ele senão não ser oprimido”. Assim, cheio de culpa e confuso, era possível sentir no guardião do Tesouro a sensação de estar próxima a ruína de seu príncipe. Os adversários estavam à porta, preparando um novo sucessor. RICARDO VERÍSSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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