Os personagens negros viraram o jogo nas novelas. Isso depois de anos exercendo a função de meros coadjuvantes ou com espaço apenas em histórias de época, relacionadas ao período da escravidão. Desde famílias de classe média, mocinhas e até anjos, atores como Taís Araújo, Aílton Graça, Thalma de Freitas e Lázaro Ramos começam a assumir papéis de importância nas tramas.
A explicação para essa mudança, segundo os autores, é a função da teledramaturgia em retratar cada vez mais realisticamente a sociedade. “Os negros estão em um momento de grandes conquistas, nada mais natural que isso se reflita na televisão também”, opina Walcyr Carrasco, que escreve Sete Pecados, na Globo.
A história de Walcyr é um bom exemplo. Na trama, Thalma de Freitas e Aílton Graça desempenham funções que, anos atrás, pareceriam impossíveis para os atores. Ele, na pele do Barão, um estiloso vilão. E ela, encarnando uma mensageira de Deus. “Não acredito na imagem de todos os anjos louros e com cabelos encaracolados. Prefiro a diversidade”, reflete Walcyr.
Velhos conhecidos da televisão, Milton Gonçalves e Léa Garcia já perderam a conta de quantas vezes discutiram com autores e brigaram por direitos iguais para os negros na teledramaturgia.
E hoje, reconhecem a melhora, mas ainda acham muito pouco. “Estamos falando de uma pequena parcela de personagens que se destaca. Mas e os outros? Ainda somos a minoria”, protesta Mílton.
Para Léa, um dos fatores que prejudicam essa inserção de negros é a própria idéia de que as emissoras precisam ser politicamente corretas. “Ninguém está agindo com ética. Os negros merecem espaço porque podem ocupá-lo e não porque são coitadinhos. Trata-se de uma mudança ideológica”, alerta ela.
Walquíria Ribeiro concorda e afirma que passou por maus bocados até ver as portas se abrirem. Depois de tentar alguns trabalhos inclusive na publicidade e não obter resultado, a atriz conseguiu um papel na novela A Escrava Isaura, da Record.Walquíria já fez escrava, mãe, dona de casa de classe média e, agora, se prepara para viver Ana, uma secretária-executiva refinada em Amor e Intrigas, próxima trama das 21 horas da Record. “Vou retratar uma mulher que nasceu em uma família com posses e é culta, fala várias línguas. Sonhava com um papel assim”, confessa.
Para Andréa Maltarolli, que escreve a próxima novela das 19 horas da Globo, Beleza Pura, fatores lucrativos ainda prejudicam esses números. “Você não pode ir contra os padrões instituídos pela sociedade. E isso tudo dentro de um contexto comercial, o que torna mais dramático o risco da rejeição”, opina.
Apesar de aprovar a evolução dos personagens negros nas novelas, Thalma de Freitas acredita que quando é escalada para viver uma empregada, está refletindo uma realidade brasileira. “Existem milhares de domésticas negras. Por que eu não posso representá-las? E foi interpretando uma empregada que assinei meu primeiro contrato longo na Globo”, justifica, referindo-se a Zilda de Laços de Família, em 2001.
FRANCANOS OPINAM
Todos concordam que o espaço para os negros na TV aumentou, no entanto também é unanimidade entre os negros francanos que ainda falta muito para o fim do preconceito. O estudante de História e vocalista do grupo de rap Visão Consciente, Luciano Tarcísio Ferreira, 31 anos, conhecido como Preto Cria, disse que pelo tamanho do Brasil e a porcentagem existente de negrois e mulatos no País, a visibilidade na mídia é muito pequena.
“Houve uma pequena evolução, mas não sou eu e nem meu filho que terá a oportunidade de ver essa mudança se concretizar. Quando um negro se vê em um jornal ou na televisão, ele se sente motivado, tem espelho para fazer igual ou até melhor”, disse Preto Cria.
O radialista, apresentador de TV e vereador Marcelo Valim acha que o preconceito ainda domina a sociedade. “Não existiam apresentadores negros antes. Não vejo negros fazendo propaganda de perfume e preto usa perfume. Não vejo negras fazendo propaganda de xampu e já existem produtos específicos para nós.
Temos grandes artistas negros, como a Camila Pitanga, o Netinho, a Zezé Mota, mas as oportunidades são poucas”.
O editor de esportes do jornal Comércio da Franca, Sérgio Marques, cita Milton Gonçalves como exemplo de ator que interpretou personagens estereotipados. Mas também vê em Lázaro Ramos um exemplo de artista talentoso que construiu sua carreira e hoje tem seu espaço garantido na TV. “Essa abertura para os negros ainda é pouca, mas reflete a inserção do negro na sociedade. O racismo não vai acabar de uma hora para outra, mas os negros podem se ver de maneira diferente, mais eficientes”.
As palavras mais otimistas e confiantes sobre o assunto vieram de um poeta de 80 anos. Carlos de Assumpção disse que para o fim do racismo ainda “tem muito chão”, mas acredita que o talento e a luta podem superar essas dificuldades. “Eu já percebi uma melhora e na Associação Cultural do Negro, em São Paulo, nós já discutimos isso. Personagens como de Lázaro Ramos e Taís Araújo refletem a posição que o negro ocupa na sociedade, que atualmente está melhorando e tem muito mais o que melhorar. No teatro, na dança, na música e na literatura, temos negros importantes e talentosos que estão conquistando seu espaço. E o que vale é o talento de cada um”.
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