Na revista Veja a matéria “Despedida Feliz” diz respeito a Randy Pausch, um homem de 46 anos com câncer terminal. Com alguns meses de vida somente Randy proferiu uma palestra “Como viver os seus sonhos de infância” e resolveu morar na praia com a mulher e as crianças e quer deixar gravados vídeos de despedida para os filhos. Parece que o diagnóstico depois de aterrorizá-lo, conseguirá fazê-lo viver bem e feliz até os últimos dias de sua vida. Será?
Embora em nossa grande maioria não vivamos com a “morte batendo à nossa porta” como este norte-americano; também ansiamos plenamente viver felizes até o fim de nossas vidas; aliás, a felicidade nos dias de hoje é quase uma obrigação. Com tantos bens de consumo prometendo a solução para os nossos problemas, como não ser feliz?
Parece que ao nascermos recebemos o diagnóstico: “é humano, e não super-humano”. A partir deste buscamos poderes para nos manter vivos e fazer valer a famosa frase dos contos de fadas: “E viveram felizes para sempre...”. A suposta felicidade tem de ser imediata. Ou é hoje, ou não é mais. Não queremos mais a poesia e sua sutileza, queremos algo escancarado, rápido, que toca o corpo com suas mensagens como o funk, o rap, etc. Não queremos um corpo saudável, conquistado com bons hábitos alimentares e ginástica, mas sim um corpo perfeito, para ser consumido “já”, e escolhemos alternativas drásticas como cirurgias plásticas, anabolizantes etc. Para as tristezas, decepções, desilusões, que são características próprias do ser humano, inventamos nomeações de doenças e com elas soluções medicamentosas para o nosso “mal”. Não queremos saber da causa, nem do custo, queremos simplesmente alívio, daí o “boom” da indústria farmacológica. Relacionamentos? Bem, estes podem ser virtuais; não queremos nos envolver, nos responsabilizar; queremos “ficar”. Inventamos esportes radicais para superar nossos limites e desafiarmos a morte. Não queremos buscar a Deus, pois este exige regra, ética, valores, e ficamos como já dizia Lupicínio Rodrigues: “...pobres moços trocam o céu por ser escuro, e vão ao inferno à procura de luz...”.
Então, assim como Randy Pausch, vivemos hoje os “nossos sonhos de infância”. Não queremos crescer e nos responsabilizar. Tornamo-nos consumidores passivos deste mundo contemporâneo.
Esquecemos que não podemos colocar a fórceps o “super” em nossa condição humana. Não tem como sermos plenos, perfeitos, pois não condiz com a nossa raça. A condição de “ser faltante” propicia despertar o desejo e colocar em funcionamento o nosso aparelho psíquico. Portanto, neste mundo moderno onde o que impera é a teoria da satisfação total, somos alienados, somos ludibriados; pois ter isso, aquilo, aquilo outro, não trará a felicidade. Felicidade não é produto, não está disponível na prateleira do mercado da esquina, tampouco na loja mais “chique” do Shopping.
Não é um estado de permanência; são antes momentos vividos que buscamos durante nossa passagem por este plano. Buscar, buscar, buscar, esta é uma característica demasiadamente humana.
HELOÍSA BITTAR GIMENES é psicóloga
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