‘Sonho que estou andando’


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Vítima de um brutal acidente provocado por um adolescente de 15 anos, Paula Cristina passa os dias em uma cadeira de rodas e depende de um andador para caminhar. Para ela, as autoridades deveriam ser mais rigorosas para reduzir os acidentes: “Somos
Vítima de um brutal acidente provocado por um adolescente de 15 anos, Paula Cristina passa os dias em uma cadeira de rodas e depende de um andador para caminhar. Para ela, as autoridades deveriam ser mais rigorosas para reduzir os acidentes: “Somos
<p>A moto ainda está num canto da garagem com o pneu torto e a parte frontal destruída. A dona não quer saber mais dela. No interior da residência, Paula Cristina de Oliveira Rocha, 26, passa a maior parte dos dias em uma cadeira de rodas. Não consegue andar por causa de fraturas na perna direita e na bacia. Também fraturou os braços. O esquerdo carrega um fixador.</p> <p><br />Nas frias estatísticas, Paula é apenas mais uma vítima da selvageria do trânsito de Franca, mas sua história serve de exemplo e merece ser contada. Teve a vida abalada e o sonho de se tornar uma médica veterinária interrompido por causa de um adolescente de 15 anos. No dia 29 de maio, o menor pegou o carro do pai e saiu fazendo loucuras pelas ruas. Invadiu uma preferencial e jogou a moto dela no chão.</p> <p><br />Paula ficou internada duas semanas e passou dois meses sem sair da cama. Perdeu a liberdade e a independência. Com a autoridade de quem sente na pele os efeitos da violência do trânsito, a funcionária do setor de assinaturas do Comércio da Franca explica por que tantas pessoas morrem por causa de acidentes em Franca e faz um alerta às autoridades. É uma entrevista para ler e refletir. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Passados quatro meses, quais as lembranças que tem do acidente?<br />Paula Cristina de Oliveira Rocha</strong>- Os detalhes estarão sempre ativos na memória. Não tem como esquecer. Seria bom não lembrar, mas é como se fosse ontem. Graças a Deus, quatro meses se passaram, mas ainda tenho um longo caminho pela frente. O tratamento é longo, mas o acidente, em si, foi uma banalidade. Estava indo para casa almoçar. Quando passei pela Avenida Moacir Vieira Coelho, nas proximidades do Leporace, uma Caravan cortou minha frente. Não tive condições de brecar. Bati na porta e voei por cima do carro. Caí no canteiro que divide a avenida, sem o capacete. Na hora, senti que havia me torcido ao meio.<br />A maior preocupação foi que tivesse quebrado a coluna. Não sentia minhas pernas. Não vi ninguém ao meu redor e bateu o desespero. Fiquei o tempo todo consciente e comecei a gritar. Foi uma dor terrível. Funcionários de uma loja em frente chegaram para me ajudar, ligaram para minha família e pegaram meus pertences que estavam todos espalhados. Uma enfermeira que também passava pelo local deu uma força muito grande. Logo, os bombeiros chegaram e me levaram para o hospital. Graças a Deus, apesar dos pesares, não caí no meio da avenida. Alguém poderia ter passado por cima. </p> <p><strong>Comércio - Nas estatísticas, o seu acidente foi apenas mais um. Para a sua vida, o que ele representou?<br />Paula Cristina</strong> - No início, me vi completamente inválida em cima de uma cama. Achei que não fosse, nunca mais, recuperar meus movimentos. O médico não dava muitas esperanças e falou que eu ficaria de repouso absoluto, sem colocar os pés no chão, no mínimo, por 60 dias, para ver qual seria a reação da fratura. <br />Me sentia inválida, pois dependia de todo mundo para tudo. Sempre fui independente e resolvia sozinha minha vida. De uma hora para outra, isso não era mais possível. Tive que aprender a pedir. Não tinha condições de escovar os dentes, pentear os cabelos. Até comida recebia na boca. Tomava banho sobre uma cama com pano. Tive que expor minha vida pessoal, profissional e financeira. Graças a Deus, minha família foi presente em todos os instantes. Recebi muito apoio dos amigos, do jornal e de pessoas que nem conhecia. Quem mais agüentou a bomba foi minha mãe e meu namorado. </p> <p><strong>Comércio - Como foi a fase inicial da recuperação?<br />Paula Cristina</strong> - Difícil demais. Ficava em cima de uma cama o tempo todo. Não tinha perspectiva de nada e não sabia como seria meu amanhã. Estava completamente inútil, com os dois braços quebrados, a perna quebrada, com a bacia quebrada. Tinha apenas uma perna boa e a cabeça. A recuperação é lenta, mas vai bem. Fiquei 11 dias e meio internada. Depois, fiquei em uma cama de hospital emprestada em casa. Todas as vezes que tinha de ir ao médico, era removida pela Prontomed. Eles me colocavam numa prancha daquelas usadas pelos bombeiros e me tiravam pela janela do meu quarto. Não dava para passar pela sala. Eu não podia me sentar, nem fazer nada. Usava fralda dia e noite. </p> <p><strong>Comércio - Está melhor?<br />Paula Cristina</strong> - Sim. Passo a maior parte do dia em uma cadeira de rodas, mas já estou caminhando com o andador. Às vezes, saio para fazer um pouco de exercício. Tenho ido ao shopping e vejo como os deficientes sofrem. Um dia, parei no estacionamento e fui atravessar a faixa com a cadeira. Quase que um carro me pegou. É incrível como as pessoas não respeitam. <br />Vou voltar à minha vida normal. Só não tenho certeza como ficará meu braço esquerdo. Ele ainda não está bom e é possível que tenha que passar por nova cirurgia. Ainda é cedo para dizer que ficará tudo bem, mas espero que sim. Estou lutando para isso, para retomar minha vida normal. </p> <p><strong>Comércio - Já chegou a sonhar que está andando, trabalhando ou exercendo as atividades de uma jovem como você é?<br />Paula Cristina</strong> - Sonho, sim. É um objetivo a ser conquistado. Nunca vou me esquecer de um dia: fiquei um pouco sem fralda e precisava ir ao banheiro, mas não tinha como me levantar. Quase me enxerguei levantando da cama. Era uma coisa tão simples, que fazemos com tanta facilidade, mas, para mim, foi uma tortura. Dependia de alguém para conseguir fazer uma coisa tão comum. Nestes dias de angústia, sonhava que estava andando. Cheguei até a sonhar que estava pulando de pára-quedas. Para mim, este sonho vai se tornar real, custe o que custar. A lição que se tira com uma situação destas é enorme: eu aprendi a dar valor às coisas pequenas da vida. </p> <p><strong>Comércio - Você sofreu fraturas, perdeu o ano e mudou completamente sua vida. Como se sente ao se lembrar que o causador disso foi um jovem de 15 anos?<br />Paula Cristina</strong> - Bate uma revolta imensa. Foi irresponsabilidade, principalmente por parte da família dele. A partir do momento em que um pai, uma mãe, seja lá quem for, deixa um carro na mão de quem não tem capacidade para dirigir, deve ser responsabilizado. Foi um abuso total. A família não tinha noção do que poderia acontecer com alguém, como aconteceu comigo.<br />Eles teriam que impor regras para este menino. A sociedade nos impõe tantas regras, por que uma família não pode impor dentro de casa? Agora, ele está lá, vivendo a vida dele. Não será punido. A família dele ficou longe e não me deu o menor suporte. Não me deram atenção e nem me procuraram para ver se eu estava viva ou morta. Não sofreram nenhuma conseqüência física ou financeira. Não ajudaram em nada. Minha mãe foi conhecê-los e, simplesmente, disseram “foi ela que bateu no meu filho”. Isto é revoltante. </p> <p><strong>Comércio - Você é uma vítima da selvageria do trânsito local. Consegue explicar o motivo de tantas mortes na cidade?<br />Paula Cristina</strong> - Pura imprudência e irresponsabilidade. É falta de as autoridades serem mais atentas e prestarem atenção em quem está dirigindo, se é habilitado, se a documentação está em dia, se o veículo tem condições de circular. Somos tão cobrados por coisas tão banais e, a cada dia que passa, o trânsito está ficando uma vergonha. O pior é ver que ninguém faz nada. </p> <p><strong>Comércio - O que o Poder Público deveria fazer para que outras pessoas não passem pelo mesmo drama que você passa?<br />Paula Cristina</strong> - Na minha opinião, os radares eletrônicos deveriam voltar para inibir um pouco a questão da velocidade. Deveria haver mais fiscalização nas rodovias e nas principais ruas. A polícia poderia fazer mais blitzes e checar a condição dos condutores e veículos. É preciso haver mais rigor e punição aos maus motoristas. A sinalização é ruim, as ruas não comportam o número de veículos. Precisa ser encontrada uma alternativa, também, neste sentido. Caso contrário, mais pessoas continuarão morrendo ou tendo suas vidas transformadas pelos irresponsáveis.</p>

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