Don Facundo era o nome de um boneco de ventríloquo que nos anos sessenta e início dos setenta fazia a festa da criançada na televisão. Me lembro bem que o boneco era espirituoso e falava com sotaque. Eu ficava fascinado cada vez que ele aparecia nos televisores em preto-e-branco. Mas um dia foi diferente. Apareceu o ventríloquo sozinho, fazendo um apelo. Don Facundo fora roubado, e seu dono pedia a que devolvessem seu instrumento de trabalho.
Assisti àquela cena meio sem entender direito. O que é que alguém faria com um boneco de ventríloquo roubado? Será que o boneco falaria com outra pessoa além de seu dono? Certamente não, não teria a mesma voz, nem a mesma personalidade. O fato é que o ventríloquo reapareceu depois com outro boneco, mas que já não era o Don Facundo. E me arrisco a dizer que estava mais triste. Não tinha mais a mesma cara, nem fazia a mesma graça.
O ladrão que levou o boneco levou também um pedaço da vida do ventríloquo.
Tudo isso me veio à lembrança no último dois de outubro quando, em plena marginal Pinheiros, em São Paulo, em meio a um engarrafamento, um motoqueiro bateu em minha janela e, mostrando um revólver levou meu relógio, meu celular e meu laptop.
Tudo aconteceu em menos de um minuto. Minha reação foi instintiva. Apenas deixei as mãos à mostra, mantendo-me calmo já que o ladrão parecia muito nervoso e entreguei o que ele pedia. . O relógio era baratinho. O celular eu bloqueei. Mas o laptop era meu Don Facundo. Dentro dele, milhares de informações. Perdi projetos nos quais eu trabalhava e que ainda não haviam sido duplicados.
Dois dias após, fiz a palestra de abertura do Congresso Internacional para a “Qualidade do Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade”, em Porto Alegre.
A palestra foi um sucesso, mas em nenhum momento me senti à vontade naquele palco. Tinha mais alguém lá comigo, o tempo todo.
Um motoqueiro e um cano de revólver...
Sempre termino a palestra com um apelo à platéia para que lute contra a percepção de que o Brasil é um país de risco. Eu digo que a exposição diária a doses maciças de violência, principalmente pela televisão, faz com que tenhamos uma imagem muito pior da realidade. Sempre defendi essa tese com paixão. Mas naquela manhã, enquanto tentava dizer aquelas palavras, senti que estava sendo falso.
Aquelas palavras cabiam na boca de um outro Luciano. Um Luciano que, de certa forma, morreu na Marginal Pinheiros, quando o que até então era uma percepção, passou a ser realidade.
Meu relógio se foi. Compro outro. Meu celular se foi. Compro outro. Meu laptop se foi. Compro outro. Mas, como Don Facundo, o ladrão levou junto um pedaço de mim. Que não dá pra comprar com dinheiro nenhum.
LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.
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