Dando continuidade ao tema proposto em nota na semana retrasada e que suscitou comentários, discutiremos, utilizando por metáfora a trajetória de uma ave, a questão das agressões físicas e/ou emocionais como fundadora de dificuldades de relacionamento.
Minha filha Nina ganhou de presente, há uns dois meses, uma calopsita linda. A título de curiosidade, a calopsita ou caturra (Nymphicus hollandicus) é uma ave que pertence à linhagem psittacidae, originária da Austrália, a primeira descrição desse animal foi feita em 1792. Sua família é a mesma dos periquitos, papagaios,araras, tuins, jandaias e cacatuas. De um branco amarelado, penacho imponente cor de gema, esse pequeno pássaro que aportou em nossa casa parece um ornamento: ladeando o bico adunco, duas bolinhas feito rouge, de um laranja denso acetinado dão uma notinha de inocência à sua majestade.
Como já sabíamos da característica social, gregária, da capacidade de interação dessa espécie, esperamos todos ansiosos por sua chegada. Mas, ao primeiro contato, passado o embevecimento por sua beleza (essa que nos hipnotiza e às vezes nos cega) de penas lustrosas e cores fortes, a decepção: o que vimos foi um pássaro agressivo, arredio, ensimesmado, encolhido no fundo da gaiola que o contivera até a sua chegada. Uma ave que não emitia sequer um leve trinado. Um ser triste e imóvel no seu desalento.
É o estresse da viagem, tentei racionalizar. No outro dia, o mesmo comportamento constrangedor: bicadas, saltos, vôos de asas abertas desvairadas pela casa à mera tentativa de aproximação.
O lógico, antes de encaminhá-lo ao veterinário, foi tentar conhecer a trajetória desse pássaro, descobrir o que pudesse ter ocorrido com ele para justificar comportamento tão esquisito. E seu percurso, assim como ocorre com humanos, diz muito dessa sua situação presente.
MARCAS
Pitico (esse foi o nome escolhido por minha filha, na suposição de que a calopsita seja macho, embora não se possa conhecer o sexo dessa espécie sem exame de DNA, o que não fizemos), pois bem, Pitico, ou Bebel (o nome feminino escolhido) foi adquirido num mercadão, fora de Franca. Em sua gaiola se aninhavam, no momento de sua compra, pelo menos 20 outros pássaros da mesma espécie. De acordo com descrição de quem o adquiriu, Pitico parecia feliz entre os iguais, até o momento de ser retirado daquele convívio. Interagia com seus pares, mas não desenvolvera relacionamento com os humanos, essencial à sua domesticação. Se os cuidadores dessas aves não assoviam, não cantam nem conversam com elas desde a mais tenra idade, sua adaptação ao ambiente humano fica comprometida. Pitico fora tratado como mercadoria, vinha com cicatrizes de antigas machucaduras sob as penas que o veterinário nos mostrou depois, suspeitando de maus-tratos. O que essa própria calopsita passou até chegar em nossa casa, nunca saberemos, já que os recursos de linguagem de sua espécie não vão além da repetição de sons à qual, aliás, esta se nega.
LIBERDADE RECUSADA
Nascida em cativeiro, não sabia o que é liberdade. Nas primeiras semanas em nossa casa, não reagia à portinhola da gaiola que deixávamos aberta para estimulá-la à exploração do ambiente. Nem o condicionamento pavloviano que eu poderia lhe aplicar (outra forma de aprisionamento, se pensarmos bem) seria possível com essa calopsita: se lhe oferecia sementes de abóbora ou frutinhas ela reagia, à mera aproximação, com uma bicada ou estranhos sons, parecidos com ofegação. O jeito tem sido respeitar o seu tempo, oferecer-lhe persistentemente e sem rancor pela não receptividade, nos esquivando de suas unhadas e bicadas, o carinho ao qual ela se recusa.
PACIÊNCIA
Nina canta pacientemente para Pitico, postada diante de sua gaiola (imagino a irritação desse pássaro!) todas as músicas de seu léxico musical. Há duas semanas ele aprendeu que pode sair da gaiola e vem fazendo isso timidamente, todos os dias, pela manhã e no final da tarde, num autismo lento e silencioso, às vezes uns pios que alinhavam nuns rendilhados ainda tênues de canto. Sabemos que a ave tem ainda um longo caminho pela frente, que não depende apenas de nós, seus cuidadores atentos, mas muito mais de si mesma, de sua disposição e capacidade de aceitar gestos diferentes da violência e indiferença sofrida até este ponto. Inundá-lo de estímulos também não seria boa idéia, por isso venho refreando suavemente os furores de minha filhinha, até como forma de não frustrá-la em demasia. Se ela se adaptará à nossa expectativa? Transpondo para os termos humanos, o ideal seria até que não o fizesse e se que autorizasse a criação de algo novo, pagando o preço disso, ao sair de si mesma. Lembro-me então da sábia lição do abade de Dinouart, que em 1771 escreveu: “a arte de se calar é a arte de fazer alguma coisa ao outro pelo silêncio”. Deixá-lo respirar, repito, em seu tempo. Maus-tratos e violência física e emocional deixam marcas profundas. Algumas reversíveis, outras irreversíveis mesmo. Por enquanto é com essa linguagem que ela nos responde e nos será um teste suportá-la mantendo o esforço por acreditar e investir em sua vida. Pitico, ao que parece, foi tão ameaçado em sua vida de passarinho, que a tudo reage como ameaça. Sua irracionalidade animal condicionada aos maus-tratos não lhe permite receber, sem desconfiança, um afago. Ainda que muito parecidos com os animais em nossas formas de responder, nós, humanos, anima-nobili (nome acadêmico para nossa espécie) temos, ao menos, a possibilidade de reinterpretar nosso passado.
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