Quando se pensa em herança, logo vem a idéia de bens que foram agregados e cultivados durante as décadas ou o dinheiro acumulado com o suor e a ascensão das gerações anteriores. O presente se faz com a construção do passado. O Brasil, no entanto, especializou-se em heranças indesejadas, visto que o que mais teve na história foi tropeços, cabendo à nova geração resolver os problemas.
Até dá para tirar algumas linhas para falar de boas heranças: avanço da democracia, conquistas sociais, maior participação cidadã em que a população tem se preocupado mais com a política, mas o que prevalece mesmo é a modernização que muito ameaça e pouco constrói.
Não que o problema da má herança seja só brasileiro, não bastasse o dito popular de que Deus é brasileiro, uma vez que já tenha sido deixada em muitos outros países. Os Estados Unidos elegeram em 2000 o presidente republicano George W. Bush, que supostamente teve vitória fraudulenta sobre o democrata Al Gore.
O novo governo jamaicano encabeçado pelo primeiro-ministro Bruce Golding declarou que estão vivendo um pesadelo devido à herança dos governos anteriores, pois, comparado com os 38 bilhões de dólares jamaicanos que o país devia em 1989, hoje o valor soma um trilhão desta mesma moeda, além do aumento do índice de criminalidade.
Em seu turno, a Argentina passou por enormes instabilidades econômicas no fim do século passado, em decorrência de ter levado ao pé da letra as disposições do Fundo Monetário Internacional, após os empréstimos efetuados e a paridade artificial com o dólar americano. Sobrou para o presidente Néstor Kirchner estabilizar o país, o que só aconteceu nos últimos anos. Receio mesmo se tem de saber quem vai herdar o regime socialista de Fidel Castro que, desde a revolução de 1959, assombra as pretensões americanas até quando sua senilidade avisar que realmente não dá mais.
É preferível que a herança só tivesse seu lado positivo e tratasse, entre outros assuntos, dos ensinamentos proveitosos que são transmitidos de pai para filho, da transmissão de importantes traços culturais numa sociedade, da bola de neve que se tem feito a ciência com as descobertas tecnológicas e os avanços da medicina. Não obstante, temos também que conviver com o lado obscuro da herança, em outras palavras, aquele que leva mais tempo para convalescer de tal forma que é melhor que ela não viesse às gerações presentes. O desenvolvimento no subcontinente latino-americano possui esse fardo, e o Brasil carrega parte dele.
A América Latina possui uma coleção de governos que retomam programas ultrapassados e obsoletos. O Brasil está naquele ponto em que já herdou tanta dívida e tanto projeto mal cumprido que já não tem mais de onde tirar heranças indesejadas. Para que a próxima gestão também fique com alguma, o nosso presidente reuniu-se com autoridades na Suécia, país tido como de consciência ambiental, para negociar a venda de etanol, o que promove maior área plantada de cana-de-açúcar no Brasil, é claro que tinha de ser aqui.
Eles consomem nosso biocombustível e nós ficamos com a produção e a responsabilidade dos riscos envolvidos. É uma vergonha que ainda tenhamos de assistir à perpetuação de uma típica herança colonial.
BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em Relações Internacionais.
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