Dos sulcos no chão de terra batido, às folhas de árvore ao vento até ao pequeno cachorro que acompanha um carro de boi. Assim é a obra do artista plástico italiano de nascimento, mas francano de coração, Bonaventura Cariolato, rica em detalhes pintados com perfeição.
Até o dia 15 de outubro quem ainda não conhece as telas do artista plástico pode prestigiar 30 quadros, além de objetos pessoais como cavaletes e tubos de tinta, no Franca Shopping. A exposição Relembrando Cariolato, organizada pelo seu neto Cássio Paschoal Toscano, 61 anos, tem o objetivo de mostrar as obras do pintor para um público maior e mais jovem.
Cariolato retratava, em aquarelas e em óleo, paisagens de fazendas da região de Franca e é considerado um dos melhores aquarelistas do País. Para pintar, ele ia até o local fotografar e depois passava para as telas ou fazia um pequeno rascunho, chamado de mancha. “Ele nunca pintou paisagens da imaginação. Sempre ia até os lugares”, explicou Toscano.
Além de pintor, Cariolato também foi arquiteto. O prédio que abriga a Pinacoteca Municipal, na Rua Campos Salles, foi projetado por ele e foi o lugar em que ele morou a maior parte da sua vida. O artista assinou a planta de diversos prédios da cidade, como a Capelinha e o Cine São Luís, mas o seu maior orgulho é o Mosteiro de Claraval. “Meu avô tinha um carinho muito especial pelo Mosteiro. Ele demorou 20 anos para fazer o projeto do prédio”, conta o neto. Cópias dessas plantas também estão expostas no shopping, os originais foram doados para o Arquivo Histórico Municipal.
A fotografia também foi importante para Cariolato. Com olhar crítico, desenvolveu uma percepção diferenciada, que ajudava na pintura.
Toscano revela uma curiosidade sobre o lado fotógrafo do avô. “Uma vez ele capturou um barbeiro, colocou na frente do rosto da empregada que trabalhava para ele e fotografou. Um médico de São Paulo que estava visitando Franca viu a foto e levou para a capital, onde ela foi usada em uma campanha do governo estadual, na década de 50, contra o barbeiro”. A foto também está na exposição.
A TRAJETÓRIA
Bonaventura Cariolato nasceu em Malo, província de Vicenza, na Itália, em 1894. Aos 28 anos, conheceu uma jovem brasileira de Conquista (MG) que estava a passeio com a família pela Itália e se apaixonou. No ano seguinte, veio para a região e pouco tempo depois radicou-se em Franca com a família.
Em Vicenza, Cariolato cursou Arquitetura e Artes e logo depois foi chamado para lutar na Primeira Guerra Mundial, onde foi capitão. O artista pertenceu ao grupo fascista Camisas Negras. “Quando fui para a Itália com o meu avô ele me mostrou um revólver que ele usou durante a guerra e que hoje está em um mausoléu. Ele tinha muito orgulho de ter essa homenagem”, contou Toscano.
Cariolato teve uma única filha, Maria Luiza, 84, conhecida como Mariela, mãe de Toscano. “Eu não tenho o nome do meu avô porque ele não deixou colocar. Na Itália, os filhos só levam o sobrenome do pai”, explicou.
Toscano conta que o dom do avô não foi transmitido para os herdeiros. “Pintar não é genético, eu não levo jeito. Morei a vida toda com ele, mas não herdei o dom da pintura”, disse orgulhoso. As 30 telas expostas pertencem à família e não são vendidas. “Meu avô vendeu mais de 2 mil telas, não sobrou quase nada pra gente”. Cariolato morreu em 1989.
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