A (falta de) cautela do presidente


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Ao sair com ênfase na defesa de José Dirceu e Renan Calheiros, como fez nos últimos dias, afirmando categoricamente ter a certeza da não existência de provas de qualquer ilícito cometido por ambos, o presidente Lula renuncia tacitamente à condição de primeiro magistrado da nação. Faz pré-julgamento de fatos que abalam a opinião pública nacional e ainda se encontram em apuração no Poder Judiciário. Sua manifestada convicção da inocência dos acusados, permite ao povo até pensar que, em caso de condenação judicial poderá, como presidente da República, usar seus poderes constitucionais para conceder o indulto ou perdão presidencial aos companheiros errantes. A importância do exercício do mandato especialmente o mais alto do país exige postura, discrição e equilíbrio, para evitar traumas e mal-entendidos. Não deve o presidente antecipar-se às instituições e pregar a impunidade, assim como é inaceitável que recorra ao recurso do “não sei” para fugir de situações embaraçosas. Tudo isso soa mal e arranha a credibilidade até de quem, como Lula, é portador de enorme carisma. O presidente que, desde o surgimento da crise do PT, se diz traído e vítima dos “aloprados”, além do dever de abster-se da defesa de Dirceu e Renan, jamais deveria ter afirmado que “caixa 2 é coisa normal” (quando se referia a dinheiro de campanha eleitoral) ou tentando minimizar a gravidade de, em menos de um ano, terem se acidentado dois grandes aviões em território brasileiro. Essa postura “alopra” a imagem do seu governo! Toda a sociedade depende do bom desempenho do governo e do país. Quem hoje investe na inviabilidade do presidente, está também patrocinando o insucesso do país, que depende de estabilidade política e econômica. O próprio presidente, no entanto, não deve transmitir para a comunidade uma imagem que o desacredite ou coloque em dúvida seus ideais. Tem, em primeiro lugar, que ser firme nas apurações de toda irregularidade que se detectar no âmbito do governo, em hipótese alguma deve empenhar o seu prestígio para salvar companheiros que erram e lembrar-se de sua condição de “primeiro magistrado”. O Lula de hoje deve entender que não é mais o sindicalista, nem a estrela de um partido político, devendo abster-se de falar como tal. A alta responsabilidade e a dignidade do posto de chefe de Estado e de Governo, exigem cautela, para manter a autoridade. Para o bem da nação, o presidente da República e as instituições que o cercam devem permanecer o mais distante possível de figuras denunciadas pela prática de crimes e irregularidades políticas ou administrativas. Só assim terão condições de cumprir suas obrigações de ofício, afastando os envolvidos quando são de sua linha administrativa, e permitindo que os órgãos especializados, do Ministério Público e da Justiça, façam seu trabalho dentro dos ditames da lei. Embora administrativamente ocupado por membros de um partido e das suas coalisões, o governo é mais do que uma casa de políticos. Suas obrigações são para com toda a população. Por conta disso, aqueles que têm o dever de operá-lo precisam estar eqüidistantes. Chegam até a sofrer a chamada “solidão do poder”, que os impede de freqüentar locais públicos e, principalmente, de relacionar-se ou sair em defesa de amigos ou correligionários do passado que acabaram se metendo em confusão. Em resumo: Lula pode e deve ter amigos. Mas o presidente, não... TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)

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