Meia hora de trabalho foi o suficiente. O estômago não agüentou e o medo falou mais alto. O funcionário saiu apressado e nunca mais voltou. A cena é verídica e acontece com freqüência com candidatos a uma vaga de agente funerário na cidade. A profissão é uma das que enfrentam o que podemos chamar de “escassez de profissionais”. São funções nas quais há demanda, mas faltam interessados capacitados para assumi-las.
Em Franca, Antônio Amélio Gomes, proprietário da Funerária Francana desde 1970, diz que, de cada cem pessoas interessadas em trabalhar como agente funerário, 98 desistem ao arrumar o primeiro corpo. Cabe a esse tipo de profissional o trabalho de dar banho, trocar, maquiar e arrumar o morto para o velório. Ele ainda é o responsável por viajar com o defunto, caso necessite. “As pessoas são melindrosas. Além disso, o agente não pode beber, precisa ser discreto, ter disponibilidade de horário e jogo de cintura com as situações enfrentadas. Tudo isso acaba afastando os candidatos, em especial os jovens”.
O salário oferecido para um agente é de R$ 850 por mês e a carga horária é de 40 horas semanais, em três turnos. O interessado pode escolher qualquer um deles para trabalhar.
Há 40 anos como alfaiate, Ademir Dutra Garcia, 56, também sente dificuldades para encontrar um ajudante. “Aqui em Franca é difícil um jovem se interessar por aprender a arte da alfaiataria e não há escolas. Tem que ser na prática mesmo”. A última vez que Ademir ensinou o ofício a um iniciante na profissão foi em 1983. Para Garcia, a industrialização e o longo processo de formação são fatores que distanciam os possíveis candidatos. Em sua alfaiataria, dos cinco ajudantes, nenhum tem menos de 30 anos. “Me tornei alfaiate oficial aos 17 anos, mas hoje os tempos são outros. Ninguém se interessa. Isso me entristece, pois é uma profissão limpa e muito bonita”.
Atualmente, um alfaiate profissional pode ganhar, em média, R$ 1200 mensais.
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A diretora do Balé da Cidade de Franca e proprietária de escola de dança, Carla Pacheco, é outra que lida de perto com a falta de profissionais. Sempre que precisa montar um grande espetáculo, Carla é obrigada a buscar bailarinos fora de Franca. “Se o espetáculo precisar de 20 bailarinos, eu não tenho esse número. Essa é uma profissão que ainda sofre muito preconceito, falta de apoio e de reconhecimento, principalmente com os homens”, explicou.
A escassez de profissionais masculinos na área é tamanha que forçou até mesmo a oferta de bolsas de estudos, totalmente gratuitas, em curso profissional de balé. São três anos de formação, pelos quais se pagaria mensalmente R$ 290. “O curso existe há 22 anos, mas até hoje apenas um homem concluiu os três anos de estudo”, revelou Carla. De acordo com ela, em grandes centros, uma companhia chega a pagar, em temporadas de fim de ano, de R$ 3 mil a R$ 5 mil, além de cachê, para um bailarino profissional.
A Igreja Católica, embora não pareça, também carece de profissionais para um de seus cargos mais importantes dentro da hierarquia cristã, o de padre. A situação é considerada “preocupante” a ponto de ter sido criado um grupo específico (Pastoral das Vocações) para trabalhar e rezar pelo surgimento de novas vocações. “Em anos anteriores, eram 30 seminaristas, neste ano, estamos com pouco mais da metade disso”, disse o assessor da Pastoral de Vocações na Diocese de Franca, padre Adilson Fortunato.
Mesmo não sendo reconhecida como profissão, os padres precisam estudar oito anos para serem ordenados e recebem, em média, dois salários mínimos mensais para se manter. “A crise ocorre porque os jovens buscam um imediatismo e não conseguem aguardar por um resultado. Como as vocações são ligadas a eles, o surgimento de futuros padres fica complicado”. O celibato (proibição de casamento dos padres) também é apontada como responsável pela escassez de padres. Na Diocese de Franca, que compreende 20 cidades, há 54 padres, 17 seminaristas e três seminários (Diocesano, Franciscano e Agostiniano).
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