Copiar produtos dos concorrentes é uma prática que atinge vários segmentos industriais. Na fabricação de calçados, porém, essa anomalia alastrou-se com maior intensidade e transformou-se em forte barreira para o crescimento do setor.
“Esse problema no meio calçadista é gravíssimo, prejudica todos os fabricantes e deveria ser discutido seriamente pela classe”. Quem faz o alerta é o estilista e consultor industrial Luís Falleiros. Ele avalia que a prática de ofertar imitações, com qualidade e preços inferiores ao produto original, impede a expansão do mercado comprador e, conseqüentemente, compromete também o crescimento das empresas.
O design é uma ferramenta fundamental para estimular o consumo de calçados. Mas deixa de cumprir essa função na medida em que o varejo é abarrotado de produtos iguais ou semelhantes na aparência. Simplesmente criou-se um mercado de descontos e tanto a indústria quanto o comércio ficam patinando. “É um negócio que só causa perdas e empobrece cada vez mais o setor”, avalia Falleiros.
Ele acredita que o caminho correto é todos os fabricantes acompanharem as tendências da moda e cada um interpretá-las à sua maneira. “Por exemplo: temos agora a indicação dos bicos redondos em sapatos mais alongados. É um estilo que só dará certo quando o maior número possível de fábricas produzi-lo”.
É importante, acrescenta, que todos conheçam o produto da temporada, seu estilo, e trabalhem nas suas características: altura do salto, cores, volume se a fôrma é mais larga, estreita ou quadrada. “Mas cada um dando a sua versão, apresentando a sua interpretação de uma tendência, e não copiar o modelo do outro”.
O que ocorre hoje no setor pode se denominado de canibalismo, sem exagero, assinala o consultor. Os fabricantes estão se comendo e ninguém ganha com isso. Há a falsa impressão de que os prejudicados são apenas os lançadores de novos produtos, pois fazem a pesquisa, o desenvolvimento, o teste de mercado, e quando o sapato está pronto é reproduzido sem as mesmas qualidades e leiloado.
No entanto, pondera Falleiros, o fabricante ignora que se preocupar somente com preço, se não personalizar o seu produto, não criar o seu estilo, sempre haverá um concorrente disposto a fazer mais barato o mesmo sapato copiado. Se o copiador é hoje o predador, amanhã será a caça, porque os produtos tornaram-se uma linha muito longa de reproduções descaracterizadas dos originais: é cópia da cópia da cópia da cópia...
O varejo, por sua vez, segundo Luis Falleiros, conhece esse processo e espera a oferta mais barata para comprar. Com as cópias das cópias, a concorrência entre os comerciantes resume-se em um tentando aniquilar o outro. “Ou seja, o calçadista oferece a arma para o seu distribuidor se matar”, enfatiza. “A cópia não leva ninguém a lugar nenhum. Ao contrário, afunda. Não há casos de indústrias bem-sucedidas sem terem construído produtos com personalidade, com estilo próprio”, termina.
Enfim, quem não sabe aonde quer chegar, todos os caminhos conduzem a lugar nenhum.
TIRO NO PÉ
Oferecer beleza, o máximo de conforto aos pés do consumidor e revelar que existe é, resumidamente, o que move uma indústria de calçados. As outras qualidades (de materiais, por exemplo), compatíveis com o preço, são obrigações do fabricante, há tempos deixaram de ser diferencial para venda. Repetindo: qualidade da confecção é obrigação do fabricante, proporcional ao valor do produto, custe 10 ou 500 reais.
Há espaço para todos no mercado, basta fazer a coisa direito. Imitar é tiro no pé e muitos ainda reproduzem modelos errados de sapatos, que o próprio lançador tem incerteza da aceitação, faz experiência. Competência é uma coisa esquisita: quem tem só se inspira em alguém, nunca imita e sempre constrói seu próprio ninho.
Luís Falleiros, que conhece bem a manufatura de calçados, afirma ainda: “Uma atitude vencedora é investir em conhecimentos, na criatividade (que todos têm, mais ou menos). Acredito ser o momento da classe enterrar os equívocos cometidos até agora e se engajar em ações construtivas.”
DUPLO DISPARO
Há uma grande diferença entre moda e lançamento de modelos de sapatos. Lançamento é proposta. Moda é o que deu certo. É preciso um determinado tempo para o mercado assimilar as novidades apresentadas e serem aceitas ou não. Tendência, lançamento e moda na sapataria são água e óleo, não se misturam.
Todo esse processo está sendo atropelado. Propostas que poderiam resultar em bons negócios são destroçadas pelos pitbulls.
No canibalismo dos fabricantes, de um querer comer o outro, parte deles ingressa sem perceber na sublime fase da autofagia (se devora imaginando ter na boca a coxa do vizinho). Nessa história, os funcionários entram na panela para engrossar o caldo: não têm perspectiva de carreira, desconhecem as metas da empresa, trabalham desestimulados etc.
QUEM SE HABILITA?
Nenhum integrante da atual diretoria do sindicato calçadista local (Sindifranca) tem interesse em assumir o comando da entidade. O mandato do presidente Jorge Donadelli termina dia 30 de maio do próximo ano e as eleições para a renovação da diretoria ocorrem quinze dias antes. Talvez surja alguma candidatura espontânea. Mas tudo indica que o sucessor de Donadelli terá de ser buscado no laço.
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