‘Nasce’ mais carro que gente em Franca


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Ana Lúcia Martins abraça seu carro. Ela não quer ter filhos, mas não abre mão do carro: “Filho dificultaria minha vida”
Ana Lúcia Martins abraça seu carro. Ela não quer ter filhos, mas não abre mão do carro: “Filho dificultaria minha vida”
Se depender das estatísticas, o ronco dos motores dos veículos vencerá o choro dos bebês em Franca. Pelos dados da Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito), no ano passado, foram emplacados em média 553 carros e motos por mês na cidade. Em contrapartida, nasceram cerca de 405 crianças em cada mês de 2006, de acordo com o Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados). São quase 150 automóveis a mais que novos habitantes ao mês. A inversão é recente. Começou em 2005. Em 2000, a realidade era bem diferente: em todo o ano, Franca ganhou 5503 recém-nascidos contra 4670 carros e motos novos a mais na frota de veículos. Para o economista Luís Carlos dos Santos, a mudança se deve às facilidades de compra oferecidas no setor de veículos, como taxas de juros reduzidas e prazo extenso para pagamento. “Isso impulsiona as vendas de automóveis”. Nas concessionárias de Franca, os clientes têm até seis anos de prazo para quitar o automóvel. O ginecologista e obstetra Flávio Tozatti, profissional há 12 anos, recebeu com surpresa a informação de que “nasce” mais carro que gente na cidade, mas encontrou explicações para o fenômeno. “Sustentar um filho demanda muita responsabilidade. Os pais têm de alimentar, educar, dar roupas, total assistência. Pelo menos quando compram o carro, vão gastar, mas sabem quanto terão de despender por mês. Já com os filhos, as despesas são imprevisíveis”, disse. Tozatti acredita que a inversão tende a continuar porque as pessoas ganharam outras prioridades na vida. “Elas querem primeiro estudar e trabalhar e, quando conseguem emprego, a primeira coisa que costumam fazer é comprar um automóvel. Além do mais, filho limita a vida, enquanto o carro proporciona diversão e comodidade”. No consultório dele, os casais têm optado por ter um ou dois filhos no máximo. “Quando têm três é porque escapou. Como as mulheres deixam para engravidar mais tarde, reduz-se a quantidade de bebês”. A autônoma Ana Lúcia Martins, 39, foge até mesmo deste perfil. Ela não quer ter filhos de jeito nenhum, mas, como o marido, não abre mão de ter carro. Os dois estão juntos desde 1994 e sempre tiveram automóveis. Atualmente, ela tem um Palio 2003 e ele uma Quantum 96, que usa no trabalho também. Até quatro anos atrás, o casal tinha três veículos na garagem. “Filho não faz falta, carro faz. Filho dificultaria minha vida; já carro, facilita”, disse Ana, que dirige para ir à faculdade, fazer compras, participar de reuniões religiosas, fazer visitas e trabalhos sociais. A motorista e o marido gastam cerca de R$ 300 por mês com combustível. A julgar pelo primeiro semestre, a tendência de “nascer” mais carros que pessoas continua em 2007. Entre janeiro e julho foram emplacados 4554 carros e motos na Ciretran contra 3219 recém-nascidos na Santa Casa e hospitais Regional e Unimed. O Tenente Sérgio Buranelli, diretor da Divisão de Trânsito Municipal, disse que o município tem de se adaptar à situação nas ruas. “Com aumento da frota que já tem 136 mil veículos, o trânsito fica mais intenso e as pessoas têm de ter cuidado redobrado. A Prefeitura também analisa as áreas em que precisa sinalizar melhor e fazer modificações para evitar acidentes”, disse.

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