Amar o próximo como a si mesmo é considerado o máximo que cada ser humano pode oferecer na coexistência. Supõe-se que o mundo estaria muito melhor se tal preceito fosse seguido. Eu tenho lá minhas dúvidas. A questão que coloco é: a gente realmente tem amor-próprio? Vejamos.
Se eu me amasse, teria parado de jogar futebol com 19 anos. Num treino (eu disse treino) um zagueiro me atropelou por trás com tamanha brutalidade que não sei como não me quebrou as pernas. Se eu gostasse de mim, naquele momento tirava as meias e as chuteiras, ia embora e nunca mais jogava.
Eu, todavia, não gostava de mim. Continuei jogando. Cheguei a matar prova na escola para jogar bola. Tinha certa facilidade para fintar e isso agradava a platéia, porém alguns zagueiros entravam para quebrar. No futebol, amador ou profissional, a rivalidade desvirtua o espírito esportivo; jogo é guerra, adversário é inimigo. Eu nunca parei para pensar: ‘o que estou fazendo comigo?’. Iludia-me com os elogios que recebia quando conseguia jogar bem. Ilusão boba e cara. Com 27 anos já estava inutilizado para o futebol, sem os meniscos e com uma enorme artrose no joelho. Quando me submeti às cirurgias e fiquei afastado, quase ninguém apareceu para dar um alô, uma palavra de estímulo, desejar boa recuperação. Como posso ter sido tão tolo? Simples: eu não gostava de mim.
Gostar de si é outra coisa. É não projetar em outra pessoa ou em certas coisas a razão da vida. É não se iludir com aparências, com coisas que supostamente impressionam os outros, mas que no fundo não nos satisfazem e, pior, ainda nos prejudicam. É agir de forma que seja possível sentir-se bem não só perante os outros, mas na nossa solidão, no cara a cara com a gente mesmo, quando não há meio de disfarçar, de se enganar. É preservar a integridade física e moral. É cultivar bons hábitos. É não ter vergonha de si, não se sentir inferior, é dar-se o devido valor.
Mas, em vez disso, atentamos contra a própria vida, alimentamos sentimentos autodestrutivos, cultivamos vícios, destruímos o planeta que nos acolhe, fazemos coisas nada dignas. Precisamos ter noção das conseqüências dos nossos atos antes de os estragos produzidos não terem mais conserto. Há que se amar o próximo como a si mesmo. Mas primeiro é preciso aprender amar a si mesmo.
Deve-se pensar assim: de hoje em diante vou me amar verdadeiramente, farei mais bonito o meu jardim, colocando grama e flores onde há mato e capim; vou levar tudo na boa, sem me desgastar com coisa à toa, com problema chinfrim; buscarei mais conhecimentos; vou gastar melhor minha grana, dar mais valor ao meu ‘dindim’ ; terei opinião; aprenderei a dizer ‘não’; não desperdiçarei tanto tempo com a TV; nada mais de bebida e botequim; não me perderei no vazio feito olhar de manequim; delinearei meu caminho, irei em busca da alegria até o último confim; terei mais atitude, cuidarei da saúde como o instrumentista cuida do bandolim. Enfim, a partir de então, do fundo do coração, poderei gostar do próximo como gosto de mim.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.