A homossexualidade no divã


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Considerando que não faz muito tempo, a homossexualidade era apontada como doença psiquiátrica pelo CID - Classificação Internacional de Doenças e que, mesmo após sua retirada desse índice, continua sendo vista por muitas pessoas como um desvio do dito “saudável” do desenvolvimento humano, não há quem não pergPara tatear alguns dos aspectos afetivos que envolvem a homossexualidade, convidamos a psicanalista Maria Luiza Lanna Matos Salomão, que traz uma abordagem permeada pelas teorias do apego e das relações arcaicas de objeto. Segundo a especialista, que prefere não fechar questões, a família e o modo como desde bebês nos vinculamos a ela podem ser em grande medida determinantes das escolhas sexuais que fazemos. ‘Aprendemos a amar com a mãe. Há duplas mãe-bebê que evoluem bem, e há duplas difíceis, a depender de um e de outro, de suas personalidades. Em geral, o que determina (tanto homens como mulheres) a procurar parceiro do mesmo sexo é, na família, a mãe se apresentar ‘mais forte’, do ponto de vista emocional (e também, em decorrência, econômica e socialmente) do que o pai. A mãe moderna está em todas: participa das reuniões da escola, da organização da casa, da roupa que os filhos vão usar, etc. (a lista é longa) e, na sua grande maioria, ainda trabalha fora de casa e sustenta a família (em todas as classes sócio-econômicas). Os pais são invisíveis em muitos sentidos, mas o principal deles é na presença emocional, no diálogo, na sua dificuldade de entrar na intimidade da família, mãe e filhos. O resultado são mães ‘solteiras’ (com o pai em casa, muitas vezes), um ressentimento geral que parte desta insatisfação conjugal e a descrença na parceria, no casal criativo e criador. Não havendo um ‘par harmônico’, o homossexual (e também o heterossexual) procura esta parceria com os recursos que possui, ‘apaixona-se’, ou pelo pai ou pela mãe, mas não consegue sentir a presença interna de um casal, pai e mãe, fonte de estabilidade e criatividade. A escolha sexual do mesmo sexo parece ocorrer, em definitivo, na adolescência, junto com a definição da sua identidade sexual’, explica ela.unte: por que e em que circunstâncias ocorre, numa mesma família, entre irmãos, por exemplo, de um se atrair por meninas e outro gostar de pessoas de seu mesmo gênero? ACEITAR A DIFERENÇA Para Maria Luiza, ‘o desenvolvimento sexual de um ser humano está na capacidade de fruir do prazer que vem do corpo, seja via masturbação, seja através de um/a parceiro/a. Se a pessoa é capaz de conviver com diferenças (anatômicas e/ou psíquicas), conservando e reconhecendo as próprias limitações e dependências. Na saúde - do homossexual ou do heterossexual - busca-se sempre alguém diferente, autônomo, e não um objeto de pura satisfação individual’, afirma. Muito já se falou sobre a questão do narcisismo como um dos envoltórios determinantes da homossexualidade, considerando que no mito, Narciso é aquele que apaixonou-se por si mesmo, ao ver-se refletido no espelho d’água, de onde nunca mais conseguiu sair: narcisismo dando significação daquele que não consegue amar outro que não seja um igual. Nesse ponto, Maria Luiza cita o psicanalista Ferenczi, que na década de quarenta propôs mudar esta notação sexual, chamando aqueles que escolhem segundo um espelho ‘narcísico’ (homossexuais ou heterossexuais) como homoeróticos e os que conseguem ver e conviver com as diferenças psíquicas como heteroeróticos (tendo ou não escolhido pessoas do mesmo sexo). Ou seja, mesmo um casal heterossexual, um homem e uma mulher podem ter uma relação homoerótica, se não há aceitação das diferenças. E um casal homossexual, em que o gênero é o mesmo, pode ter uma relação heteroerótica, e as diferenças podem ser vistas e respeitadas. EXPRESSÕES DA ALMA ‘Segundo Adélia Prado, a alma é erótica. A alma garante as suas escolhas psíquicas, o corpo acompanha. Os poetas sabem, os investigadores, os psicanalistas tateiam em busca de uma possível expressão da alma. Poder expressar é condição necessária para a saúde, não importa o que nossas crenças, preconceitos, tentam fazer com nosso corpo e com a nossa alma. A luta contra estas crenças e preconceitos começa em casa, não só com os pais, mas principalmente consigo mesmo. É preciso coragem para desejar os próprios desejos, condição para deixar de ser somente objeto de satisfação do outro. Assim ser homossexual pode ser ou não uma ‘escolha’ (porque se dá de forma inconsciente) e, passada a adolescência, esta ‘escolha’ pode ser revertida ou não. O sofrimento decorre de um conflito interior, quando o homossexual ainda se pune e se castiga pela opção feita, tornando sua vida insuportável quando permite que as pressões externas prevaleçam sobre sua escolha individual’. VIVER É CORRER RISCO A psicanalista lembra ainda que qualquer grupo social pode sofrer preconceito e discriminação, pela ideologia, cor, religião, geografia. ‘Judeus, negros, muçulmanos, homossexuais, a depender do contexto em que vivem, podem sofrer pressões cruéis. A única saída, da qual se valem todos estes grupos que dei como exemplo, é a denúncia, do ponto de vista social. A saída individual é muito mais complexa: exige uma tomada de consciência e uma escolha, com o risco de perdas e ganhos, contabilizados de maneira pessoal, individual’, finaliza ela.

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