Ex-taxista sobrevive a oito facadas e reconstrói a vida


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Há seis anos, Ricardo foi vítima de um assalto em Franca no qual levou oito facadas. Os ferimentos lhe tiraram os movimentos das pernas, mas não a vontade de sonhar
Há seis anos, Ricardo foi vítima de um assalto em Franca no qual levou oito facadas. Os ferimentos lhe tiraram os movimentos das pernas, mas não a vontade de sonhar
Sábado, 26 de maio de 2001. Ricardo Teodoro, então com 24 anos, se prepara para mais uma corrida. Ele é taxista. O fim de semana é ideal para faturar um pouco mais. Ricardo se despede da namorada e segue para a cooperativa. À noite, a central de táxi passa um endereço. Ele se dirige para o bairro indicado: Jardim Aeroporto. Um rapaz, aparentemente menor de idade e bem vestido, o espera. O jovem entra no carro, saca um revólver e ordena para que Ricardo fique quieto. Era um assalto. Na mesma hora, outros três jovens entram no veículo. Todos armados. Um deles com uma faca. Assim que entrou no carro, o menor armado com a faca desferiu o primeiro golpe. “Pensei que fosse uma coronhada. O sangue escorria pelas minhas costas, mas não olhei para trás. Mandaram eu seguir com o carro e assim eu fiz”. Na altura da Vila Hípica, os quatro assaltantes ordenaram que Ricardo entrasse em um matagal e entregasse tudo que tinha. “Eles queriam tudo, menos o carro, eram menores e nenhum sabia dirigir”. Os três bandidos armados com revólver fugiram. O que estava de posse da faca decidiu ficar. Sem dó, deu outras sete facadas na nuca e pescoço de Ricardo. O último golpe deixou o taxista, aos 24 anos, em uma cadeira de rodas. “Quando ele me deu a última facada não senti mais minhas pernas nem o braço direito. Pensei que estava morrendo”. Ricardo foi encontrado no meio da mata por um policial militar que havia desconfiado de algo errado ao ver o menor saindo do local. Os meses seguintes foram difíceis. O posto de taxista - que ele havia assumido há um ano (antes era de seu pai, que se afastou para o tratamento de um câncer) - precisou ser transferido. Mesmo doente, seu pai voltou a trabalhar. “Eu não tinha condições de fazer absolutamente nada. Tranquei a faculdade (na época ele tinha concluído o primeiro ano de Direito) e fiquei seis meses de cama”. Quando deixou a cama, era hora de encarar a realidade. Ricardo descobriu que não poderia mais dirigir. Estava paraplégico. A cadeira de rodas seria sua companheira constante para o resto da vida. “Como tinha terminado o primeiro ano de Direito, pensei: é esse o caminho, tenho que seguir estudando”. Apesar da determinação, faltavam recursos para pagar o curso. Sem alternativas, o jeito foi bater na porta da faculdade e pedir uma bolsa. “Quase cansaram de mim de tanto que insisti. Bati na Unifran (Universidade de Franca) ao menos dez vezes. Graças a Deus, na última, atenderam ao meu pedido”. Vontade de estudar, Ricardo disse que tinha, mas ele não conseguia tirar boa notas. “Fiquei com medo de perder a bolsa. Desmaiava nas aulas, ainda não havia me recuperado totalmente”. Quando faria o terceiro ano de curso, em 2003, ele precisou deixar os estudos. Mudou-se com o pai, a mãe e uma irmã para São Paulo. Juntos, pai e filho iriam fazer tratamento no Hospital das Clínicas. Cinco meses depois da viagem, o pai de Ricardo morreu. “Meu mundo desabou. Ele era tudo para nós”, recorda. Em agosto de 2003, o ex-taxista voltou com a mãe e a irmã para Franca, onde tinham casa própria e o ponto de táxi. Conseguiu de volta a bolsa na Unifran e, finalmente, terminou o curso de Direito, em meados de 2006. Chegou a fazer estágio na Receita Federal e, agora, estuda para prestar concurso público e tirar a carteira da Ordem. “Não é fácil. Há muitas limitações para os deficientes físicos em Franca, mas eu tenho que viver”. A receita para vencer todas as dificuldades, Ricardo tem na ponta da língua: “Nunca deixei de sonhar. Tiraram-me as pernas, mas nunca os meus sonhos”.

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