A dona de casa Irene de Jesus Rosa Freitas, 61, é uma senhora tranqüila e de fala mansa. A impressão é de que ela nunca se estressa. Características ideais para o trabalho que exerce há 25 anos. Irene, que mora no bairro rural de Goianazes, a 12 quilômetros de Capetinga (MG), dedica sua vida a cuidar de crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos. Mas ela não está sozinha. A dona de casa faz parte da Fundação.
Humanitária “Eurípedes Barsanulfo”, que mantém uma creche, um lar que recebe jovens vítimas de maus-tratos e ainda está construindo um hospital. A diretoria da entidade é formada por 45 pessoas e 15 voluntários.
O trabalho de Irene começou ainda em Ribeirão Preto, onde morava. Lá, ela ajudava instituições que trabalhavam com famílias carentes distribuindo sopas. Ao se mudar para Goianazes, em 1982, Irene não conseguiu ficar parada. “Comecei a distribuir sopa para os mais pobres aqui no bairro mesmo”, disse, lembrando que o trabalho durou cinco anos e atendia 30 famílias.
Ainda com vontade de ajudar os mais necessitados, em 1983, Irene montou uma creche em sua própria casa para abrigar as crianças de mães que trabalhavam fora. No começo, eram poucas. Com o reconhecimento dos vizinhos, o número cresceu. Ela chegou a atender mais de 50 crianças. Em 1990, a creche ganhou sede própria com ajuda de doações. Hoje são atendidas 30 crianças.
Ainda em 1983, a dona de casa começou a atender também jovens vítimas de maus-tratos que passaram a morar em uma chácara com a família de Irene. “Logo que fundei o lar, recebi dez crianças”, disse. Atualmente são atendidos 47 jovens, com idades entre um mês e 26 anos. “Só recebemos os jovens que foram retirados do convívio familiar por determinação da Justiça. Apesar de trabalhar há tanto tempo com isso, ainda fico chocada com pais que abandonam os filhos”.
Com o trabalho já reconhecido, Irene fundou em 1986 a Fundação Humanitária “Eurípedes Barsanulfo”, que hoje administra as duas instituições e tenta terminar de construir um hospital. A obra teve início depois que uma gestante morreu nos braços de Irene antes de conseguir chegar ao hospital. “Fiz uma promessa de que construiria um hospital para atender pessoas carentes e hoje o meu maior sonho é vê-lo funcionando”.
O LAR
O maior orgulho de Irene é o conjunto de casas onde moram as crianças e jovens vitimizados. São quatro imóveis que ficam numa chácara. Dois são usados como dormitório. Um abriga as máquinas de costura usadas para consertar as roupas que recebem de doações e ainda para confeccionar almofadas e sacolas para serem vendidas. O outro imóvel é onde funciona a cozinha, sala e banheiros.
Ao entrar na chácara, é possível ver meninos e meninas espalhados por todo lado. A maioria crianças. Há aqueles mais arredios, mas quase todos cumprimentam os visitantes pegando na mão de quem está chegando. Logo soltam um sorriso tímido. Eles chamam Irene de mãe e parecem uma grande família.
Irene prefere preservar a identidade de cada um e não permite que conversem com a reportagem. “Há casos em que os pais não aceitaram a decisão da Justiça, então prefiro preservá-los. Já que ao expô-los posso colocá-los em risco.”
Tudo na fundação é mantido com doações. Eles não recebem nenhum centavo do poder público. A ajuda de voluntários e simpatizantes é fundamental para qualquer coisa, desde alimentos, roupas, calçados até colchões. “Não gosto muito de comentar isso, mas ainda espero que uma ajuda oficial chegue”.
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