Parece um show de acrobacias. A cabeça toma o lugar dos pés, as pernas são jogadas para o alto e os braços parecem se multiplicar em dez. A dança break, um dos três elementos da cultura hip hop (leia mais no texto ao lado), surgiu nos guetos marginais de Nova Iorque e desembarcou no Brasil na década de 80. Caracterizado pelo estilo livre de rua, sem limites físicos e desafios contra a gravidade, o break é uma dança de espírito e muita musicalidade.
Em Franca, desde os anos 90, centenas de praticantes de todas as idades buscam espaço para apresentar mais do que um estilo de dança: um estilo de vida. Atualmente existem seis grupos de break na cidade: Soul Flow Crew, Aero Break, EDS Crew, Family of the Break, Planet Crew e B. Boys Style Break.
Com 14 integrantes - sapateiros, na maioria -, pouco mais de um ano de formação, mas na bagagem a experiência de dançarinos com mais de dez anos de dedicação ao break, o grupo Soul Flow Crew quer mais que reconhecimento. Os integrantes sonham em conseguir um espaço para ensaiar e se dedicarem ao voluntariado. Trocando em miúdos, eles querem tirar as crianças da rua e da marginalidade para ensinarem os passos da dança.
O professor de break e integrante mais velho do Soul Flow Crew, Edson Daniel Candido, 27 anos, conhecido como B. Boy Edy Jequinha, conta que o grupo ensaia seis vezes por semana, em três locais improvisados. “Segunda à noite a gente ensaia na Concha Acústica onde o chão é ruim; de terça a quinta na Casa do Estudante, o chão é de tatame, é mole e não dá para executar os movimentos direito e de sábado e domingo nós ensaiamos na escola João Marciano onde damos aulas no programa Escola da Família”.
O B. Boy Bomber - Clayderman Alves Eduardo -, 21, explica que além do preconceito com a dança, a falta de apoio prejudica o trabalho do grupo. “A gente dá aula só no fim de semana para a molecada. Mas nós queríamos acompanhar o dia-a-dia desses meninos. Durante a semana, a gente não sabe se eles estão na rua, se vão para a escola. Se a gente tivesse um lugar apropriado para ensaiar todos os dias, a gente ia poder fazer muito mais pela sociedade”.
Entre o sonho e a realidade, a barreira do preconceito é vencida aos poucos. “Tem pai que não quer deixar o filho fazer aula de break. Aí a gente faz questão de ir na casa desses meninos, conversar com os pais e mostrar que o break é um compromisso, um estilo de vida ”. A B. Girl do Soul Flow Crew, Joice Cristina Nunes, 22, ressalta que o break ensina a respeitar o próximo. “Nós estamos sempre tentando superar todos os tipos de limite”.
O próximo limite que o grupo quer superar é a falta de patrocínio. Na semana passada, Soul Flow Crew ficou em segundo lugar numa competição que reuniu grupos de break de 15 cidades em Franca. Em outubro acontece um campeonato em Araraquara e em dezembro o Brasileiro, em São Paulo. “Nós queremos muito participar, mas só a inscrição do Campeonato Brasileiro fica em mais de R$ 100, fora a viagem. Precisamos de patrocínio para continuar competindo”.
O HIP-HOP E A ORIGEM DO BREAK
A cultura hip hop é formada pelo rap, grafite e break. O rap é a expressão musical-verbal da cultura. O grafite representa a arte plástica, expressa por desenhos coloridos feitos nas ruas das cidades. E o break é a dança que possui quatro bases: o Top Rock - a dança preparatória feita com o corpo na vertical -, o Footwork - trabalho feito com os pés movimentando o corpo circularmente com o apoio das mãos no chão -, Freeze - movimento congelado - e o Powermove - giros e saltos.
O termo break vem da música que os DJs tocavam nas block partys (festas de rua) que tinham como fonte o Soul, Funk, Jazz e músicas Latinas. Break - ou simplesmente B. - é o trecho de maior impacto de uma música, que na maioria das vezes é instrumental, valorizando mais a batida e a linha de baixo.
Nesse momento da música, os garotos (boys) e garotas (girls) entravam em ação e assim ficaram conhecidos como B. Boy, ou seja, garoto (a) que dança no break da música. Kool Herc - pioneiro das block partys do Bronx no anos 70, festas que deram origem a cultura Hip Hop - foi quem apelidou os dançarinos de B.Boys.
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