Alguns conhecidos foram embora do Brasil. Segundo eles, o Brasil já era! É claro que não concordo com eles. Abandonar o barco não está nos meus planos. Mas eles cansaram de lutar e decidiram construir seu futuro em outros lugares. Nenhum deles, até o momento se mostra arrependido.
Outro dia eu tentava classificar esses amigos. São refugiados. Mas refugiados do quê? Políticos? Não. Já passou esse tempo. Religiosos? Não. Não temos no Brasil essa intolerância religiosa. Econômicos? Será? Não. Não acho que se aplique. E então recebi um e-mail de um leitor, o Walter Schütz,, que sanou minhas dúvidas. Olha só:
“Estou pensando seriamente em pedir outra nacionalidade, depois do Renan, e de ouvir do presidente mais de uma vez que ninguém tem mais identidade moral no País que ele e o PT. Se este é o parâmetro, e como me considero diferente deles, resta-me apenas achar um país onde a ética não tenha sido afrontada como o foi no Brasil e pedir humildemente que me aceitem como refugiado ético.”
Refugiados éticos. Genial!
Descreve com precisão a situação de meus amigos. Veja só: eles tinham empregos bons no Brasil. Os filhos estavam em boas escolas, as famílias viviam decentemente. Mas perderam aos poucos a credibilidade e um dia perderam a esperança.
Certamente os últimos acontecimentos relacionados ao julgamento de Renan Calheiros convertam mais alguns milhões de brasileiros em céticos que não acreditam em mais nada.
Mas fazer o quê diante desse descalabro, dessa impunidade?
Eu me inspiro em referências, a exemplo de César Zama que, em 1890, na elaboração da primeira constituição republicana, defendeu o voto universal para as mulheres. Outros abnegados aderiram e em 1933, as mulheres ganharam o direito de votar. Mas tudo começou antes, com a ação individual de um não-cético que deve ter sido chamado de bobo.
Depois me imagino em Abreu e Lima, Pernambuco, em março de 1983. Alguns membros não-céticos do PMDB no município organizam manifestação pedindo eleições diretas para Presidente da República. O movimento cresceu até chegar ao Vale do Anhangabaú em São Paulo, onde mais de um milhão e meio de pessoas gritaram pelas “Diretas Já”. A meia dúzia de não-céticos em Abreu e Lima também devem ter sido chamados de bobos.
Repare: as mudanças sempre acontecem a partir da iniciativa de poucas pessoas, que a maioria cética chama de “bobos”. São conspiradores aqui, formadores de opinião ali, indignados acolá.
São os mais ativos que convencem os menos ativos.
Não posso imaginar nada mais triste do que um país que produz “refugiados éticos”. Gente que não foge da guerra, não foge da fome, não foge da perseguição política, não foge de pestes nem de desastres naturais. Foge da miséria que a maioria nem percebe que existe.
Mas talvez isso seja bom. Quem sabe nossos refugiados éticos, lá de longe, nos ajudem a colocar este país nos trilhos? A partir de sua experiência em sociedades em que a ética ainda é respeitada, nos enviando argumentos, exemplos, força e motivação. Serão refugiados éticos ativos. Militantes.
Interessados em voltar para casa. É uma idéia, não é?
A luta aqui será violenta, desleal, dura e demorada.
Mas pode começar por você. Seu bobo.
LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.
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