Síndrome de Peter Pan


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Ao ler a matéria “Trabalha em Franca? Resgate até R$ 2,6 mil do seu fundo de garantia” publicada pelo Comércio no dia 20, pequenos detalhes me chamaram a atenção. O primeiro dava conta de uma injeção de pelo menos R$ 75 milhões na economia francana caso os mais de 50 mil trabalhadores locais sacassem o máximo permitido de R$ 2,6 mil. O segundo era que a CEF (Caixa Econômica Federal) não havia liberado os saques, pois teria uma outra interpretação da lei que permite o resgate de parte do FGTS, na ocasião em que cidades têm reconhecidas situações de emergência. Acabei ficando decepcionado após alguns dias de discussão sobre o assunto porque poucas - ou quase nenhuma - entidades de classe encamparam a luta pela liberação. Nada mudou. Continuamos tão individualistas que, cegos, não vemos a causa coletiva em ações individuais. O óbvio ulula e não percebemos. É dinheiro suficiente para fazer girar a roda da economia local por alguns meses. E nem é Natal. Penso que Franca é mesmo uma cidade do interior de São Paulo que não quer crescer. E quem pensa o contrário não age. É isso? Me dá preguiça quando ouço discursos do tipo: “se isso vier para cá a cidade quebra”, “se aquele grupo entrar em Franca, os pequenos serão esmagados”... Tudo conversa de Peter Pan. Gente que não quer crescer. Que não queiram, é um direito individual inerente aos covardes. Mas, por favor, deixem livres os que almejam seguir em frente. Parece que estamos “amarrados”. Onde estão as entidades de classes da cidade? Será que vão continuar a fazer ouvidos moucos para mais um clamor da população? Nossos empresários, comerciários, comerciantes e suas entidades representativas estão calados, passivos. Não deram bola para o assunto. “Ah, isso não é comigo!”, deve ter dito um lojista. “Afinal, para que sacar o dinheiro do fundo de garantia? Ficar com o dinheiro no bolso, feliz? Nem estamos no Natal”, teria pensado um empresário. A impressão que tenho é a de que trabalhamos contra nós mesmos. Se os menos avisados não perceberam, os milhões que poderão ser sacados do FGTS retornarão para a própria cidade. É aí que o cidadão vai fazer valer o seu dinheiro. O pai quitará suas dívidas com o mercado; a dona de casa comprará um fogão novo com o dinheiro do marido; a reforma, enfim, sairá do papel; roupas novas, calçados novos... Criatividade para gastar todo mundo tem. O que faltava - o dinheiro - está aí e pode fazer diferença. E então? Ainda assim, repito: onde está a OAB para orientar a população? A Acif está se movimentando? E a CDL? Boas vendas não significam nada para vocês? Onde estão os sindicatos? Até agora vi apenas o calçadista se movimentar em orientação a seus associados. Se caso alguém se levantar para dizer que não tem como fazer nada – “não é de minha alçada” –, seguirei pensando que esta cidade não deve acabar nas mãos do Capitão Gancho. Prefiro acreditar que a Sininho e os Garotos Perdidos darão um jeito. ALESSANDRO MACEDO é jornalista, editor de Revistas e sub-editor do Caderno de Domingo do Comércio da Franca.

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