<p>Ostracismo. Esta é a palavra que melhor define a condição política do ex-prefeito de Franca Gilmar Dominici (PT). Acolhido em Brasília pelo seu partido depois de oito anos no comando de Franca, o ex-prefeito continua a lutar, via palavras, para demonstrar representatividade. “Sou muito respeitado em Brasília devido ao meu trabalho”. No cubículo em que dá expediente ao lado de centenas de assessores estão um computador, um telefone e o bloco de papel e a caneta, sempre à mão. </p>
<p><br />Sobre editorial do Comércio que o classificou, no último dia 12, como “cadáver político”, contemporiza. “Achei a matéria exagerada. Outros políticos já passaram por situações semelhantes e deram a volta por cima”. Ainda assim, diz que não pensa em ser candidato em 2008. “O partido tem outros nomes.”<br />Cordial, responde às perguntas sem exaltação. Altera um pouco a voz, contudo, ao falar do prefeito Sidnei Rocha (PSDB). “Ele orquestrou, em suas duas rádios, uma campanha suja contra mim”, diz. Confira os principais pontos da entrevista. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - O senhor foi punido, em primeira instância, com a perda dos direitos políticos por oito anos, além de multa superior a R$ 200 mil. Como vê a decisão? <br />Gilmar Dominici</strong> - É importante deixar claro que são decisões de primeira instância e que as alegações são de caráter administrativo, ou seja, foram motivadas única e exclusivamente por questões que não implicam prejuízo à população ou aos recursos públicos. Ao contrário. Com as medidas, garantimos a coleta de lixo e a varrição das ruas, o funcionamento do aterro sanitário e ainda reduzimos o que a Prefeitura pagava em mais de R$ 700 mil.<br />Considero injusta a decisão. Já entrei com o recurso, o que me deixa com todos os direitos políticos até o julgamento da ação. Vamos dar as explicações na segunda instância.</p>
<p><strong>Comércio - O senhor pensa em ser candidato nas eleições de 2008?<br />Dominici -</strong> Meu nome, por ter sido prefeito duas vezes, sempre é lembrado em período de eleição, mas, no momento, não penso em ser candidato. O PT tem nomes importantes, como o vereador Gilson Pelizaro e Cassiano Pimentel, que foi meu vice. Independente de não ser o nome, lutarei para que o partido volte a governar Franca. </p>
<p><strong>Comércio - O Comércio trouxe, em 12 de setembro, um editorial em que o qualifica como exemplo de cadáver político em Franca. O que pensa sobre sua posição política?<br />Dominici</strong> - Eu não sou um cadáver político. A análise é exagerada, até porque existem exemplos na história do País de quem viveu problemas semelhantes e deu a volta por cima. O próprio Sidnei Rocha, que estava no ostracismo, é um exemplo. Em que pesem erros que tivemos, questões localizadas não podem jogar na lata do lixo o trabalho bonito que o PT fez na cidade. <br />Também não podemos levar em conta as eleições de 2006 [quando Gilmar recebeu menos de 15 mil votos para deputado federal], já que o PT vinha de uma crise e o cenário era desfavorável. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor, em algum momento, sentiu-se traído por assessores?<br />Dominici -</strong> Meu governo não foi só do Gilmar, teve a participação de meus secretários, funcionários, de todos. Não me considero traído por nenhum dos meus assessores. Se algum secretário teve problemas, eles foram denunciados depois de terminado o meu governo. Não há denúncias judiciais no andamento do mandato. Claro que, em oito anos, houve modificações. Na área de Finanças, seis secretários passaram pela pasta, mas, até que me provem o contrário, não posso julgar que houve irregularidades ou que tenha sido traído. </p>
<p><strong>Comércio - Considera o trabalho de seus secretários eficiente?<br />Dominici</strong> - Se as pessoas não conduziram bem o trabalho, se eu esperava mais, é claro que sim. Alguns me surpreenderam positivamente, outros negativamente. Mas daí a considerar que eles me traíram, ou agiram de forma deliberada para prejudicar o governo, eu estaria sendo injusto. </p>
<p><strong>Comércio - Fale um pouco sobre seu trabalho em Brasília. Como está sendo a experiência de trabalhar no governo Lula?<br />Dominici -</strong> É um grande orgulho trabalhar no governo Lula. Ajudei em todas as campanhas eleitorais, sempre fui do PT e é importante viver a experiência. Depois, minha nomeação foi resultado da minha luta no movimento municipalista. Sempre estive ligado com a causa, fui vice-presidente da Confederação Nacional dos Municípios e, por conta disso, fui convidado para integrar a Subsecretaria de Assuntos Federativos, órgão ligado à Secretaria de Relações Institucionais do Ministério das Relações Institucionais.<br />Eu, que vivi o drama de governar uma cidade que tem uma arrecadação muito baixa, vivi os problemas na pele e, por isso, sou muito valorizado e coordeno cinco grupos de trabalho. Acompanhamos toda a pauta, no Congresso, que tenha a ver com temas de interesse aos municípios. Ao contrário do que se pensa, trabalha-se muito em Brasília. Trabalho em média 12 horas por dia. Entro às 8 horas, dificilmente saio antes das 21 horas. </p>
<p><strong>Comércio - Sobre o dinheiro, o senhor disse, na última semana, que está ‘quebrado’. O salário não compensa?<br />Dominici -</strong> Brasília é uma cidade muito cara. Moro em um apartamento perto do Planalto, vou a pé para o trabalho. Não dá para guardar muito dinheiro. </p>
<p><strong>Comércio - E o que faz nas horas livres?<br />Dominici</strong> - Nas horas de lazer, faço caminhadas e estou treinando, duas vezes por semana, um curso de Kenjutsu, uma arte marcial japonesa que descobri aqui. É muito legal. Na tradução, significa ‘A tecnologia da Espada’. Você trabalha corpo, mente e espírito, perde muito peso. São três horas. Faz exercício físico, reduz o estresse. É a luta de espada. Estou virando o samurai moderno (riso). </p>
<p><strong>Comércio - Faça um pequeno balanço da gestão de Sidnei Rocha.<br />Dominici</strong> - A atuação do Sidnei não me surpreende. Na campanha eleitoral, ele tentou mostrar que havia mudado sua forma de agir, mas a realidade é que a administração dele continua centralizadora e não respeita a população. Exemplo claro disso foi o fim do Orçamento Participativo. As decisões são todas da cabeça dele, os secretários têm um peso muito pequeno, o que está na contramão da história. E tem a relação com a Câmara, onde ele institucionalizou a submissão do Legislativo. Pior ainda, é um governo que não favorece o surgimento de novas lideranças. </p>
<p><strong>Comércio - Sidnei Rocha costuma dizer que faltava um gerente para a cidade. A sensação popular é que, quando assumiu, o prefeito centralizou as decisões e mostrou lide-rança. O senhor concorda?<br />Dominici -</strong> Ele batia no peito e dizia que faltava um gerente para a cidade, mas, hoje, os problemas que estamos vivendo - entre eles o escândalo do Bagres e o do aterro sanitário - demonstram que ele não é o gerente que afirmava ser. Nada como um dia após o outro, embora eu, de Brasília, nunca tenha torcido para que as coisas dessem errado. Sempre me coloquei à disposição, embora nunca tenha sido procurado. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor se considera perseguido pela imprensa?<br />Dominici -</strong> Com certeza. Se a avaliação for justa, isso ficará evidente. Tenho guardadas comigo mais de 200 horas de áudio de programas de rádio, principalmente da Hertz, que mostram que fui perseguido politicamente. Nem direito de resposta tive. Fizeram um ataque violento contra nosso governo sem que eu pudesse responder. Fui conseguir um direito de resposta depois que meu mandato terminou e o desgaste já havia sido feito. <br />A campanha orquestrada pelo Sidnei Rocha causou muitos estragos. Eu fui destruído para atender outros interesses. Sidnei Rocha usou o poder de suas duas emissoras para promover uma campanha contra mim com mentiras, calúnias, tudo. Quem fizer uma análise das notícias verá isso. </p>
<p><strong>Comércio - Guarda mágoa de algo?<br />Dominici</strong> - Nada. Acho que minha passagem pela Prefeitura foi muito proveitosa, tanto para mim quanto para Franca. Sei que fui vítima de desonestidades, mas não guardo mágoa. Passado é passado.</p>
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.