O senso-comum está crivado de balas e torpedos contra essa imensa entidade que denominamos mídia.
Talvez seja oportuno refletir um pouquinho mais aprofundadamente sobre a interface psicologia e comunicação nesta ocasião da comemoração dos 92 anos do jornal Comércio da Franca.
Não há novidade alguma na afirmação de que vivemos atualmente a cultura da mídia. Na comunicação e cultura de massas, saiu na TV ou deu na revista, a informação acaba por ser deglutida como verdadeira e inquestionável.
Não se pode negar também que tal instância se apresenta e se coloca, subliminarmente, por seu discurso, como uma espécie de 4º Poder vigente. Temos visto a mídia organizando formas sociais, substituindo manifestações culturais, fazendo um grande número de pessoas enxergar o mundo por suas lentes, seus vieses de modo acrítico.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro promoveu um encontro no mês de junho para discutir exatamente “Mídia e Psicologia”. Na apresentação desse seminário, o enunciado: “As mídias hoje detêm o poder de fazer crer e fazer ver, transformando simulacros em verdades, como apontou Jean Baudrillard, ao constituir ícones que substituem valores, contextos sociais, famílias, grupos, constituindo os arquétipos do imaginário, como árbitros de valores e aceitação, de gosto e medida”.
Assim sendo, as novas tecnologias da informação impõem-se como nova realidade e a medida de seu alcance ainda não está posta. É óbvio que essa realidade relativamente recente traz em seu bojo novos modos de experiência e subjetividade, isto é, maneiras outras do ser humano, enquanto indivíduo, se colocar frente a si mesmo e à comunidade que o circunda. A questão não fundamental desse artigo não está em demonizar os meios de comunicação (longe desse patamar, que seria simplista e incongruente com a sua autoria).
Os meios de comunicação são importantíssimos instrumentos da democracia, mas é imperioso discutir o modo como as pessoas se posicionam frente à avalanche de informações que lhes são despejadas todos os dias. O psicanalista Joel Birman caracteriza a sociedade pós-moderna como marcada pela cultura do narcisismo e do individualismo - uma díade sedutora e explorada à exaustão pelos veículos de comunicação ao criar padrões de beleza, normas de comportamento, estereótipos muitas vezes a serviço de seus mais caros anunciantes. Birman diz: “A sociedade pós-moderna - caracterizada pela cultura do narcisismo e pela sociedade do espetáculo - construiu um modelo de subjetividade em que se silenciam as possibilidades de reinvenção do sujeito e do mundo”.
Essas marcas do homem contemporâneo estão em franca oposição ao projeto freudiano, a saber, o de um homem em busca de maior liberdade no agir e no pensar, o de um homem menos propenso aos esquemas autoritários, às “encantações rítmicas do discurso demagógico”, parafraseando o nobel Joseph Brodsky.
O terrível nesse espectador acrítico, nesse consumidor voraz dos enunciados da mídia é sua passividade, sua subserviência aos ditames do momento. Ora! Por que eu tenho que inventar ou me reinventar a mim mesmo num momento em que tudo está presumido e delineado, bastando-me apenas seguir, sem teimar, sem me contrapor ou rebelar ao que quer que seja? Ainda conforme as idéias de Joel Birman, a sociedade de consumo se caracteriza pela valorização excessiva da aparência. Diz ele: “no bojo da sociedade narcísica do espetáculo, o individualismo e o autocentramento atingiram seu ponto máximo, com o conseqüente apagamento da alteridade e da intersubjetividade ao lado de um enaltecimento exacerbado de si mesmo. Assim sendo, esse autocentramento se mostra desprovido de interioridade e caracteriza-se pelo excesso de exterioridade, de exibicionismo.
Institui-se assim, a hegemonia da aparência para a qual o sujeito vale pelo que parece ser”. Para o psicanalista, isso reflete a valorização de uma forma perversa de existência.
A psicopatologia da pós-modernidade (uma coisa desdobrando a outra) define-se então, justamente, pelo fracasso de muitos sujeitos - sejam eles deprimidos, toxicômanos, em síndrome do pânico - em realizar a sua subjetividade sem precisar alcançar modelos estabelecidos e, não raro, inalcançáveis.
DEVASTAÇÃO PSÍQUICA
Relações perigosas e devastadoras são aquelas permeadas pelo abuso psicológico. Um tipo comum de abuso psicológico é o que se dá sob a tutela de comportamentos histéricos, cujo objetivo é mobilizar emocionalmente o outro para satisfazer a necessidade de atenção, carinho e adulação. Há também aquele tipo de agressão emocional em que um busca dissimuladamente fazer com que o outro se sinta inferior, dependente, culpado ou omisso.
Quem nunca topou com aquele que faz tudo corretamente, impecavelmente certinho, não com o propósito de ensinar, mas para mostrar ao outro o tamanho de sua incompetência?
PARA PENSAR
Heloísa Bittar Gimenes enviou convite para participação de evento no CLIN-A (Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade) sobre o tema: “A mulher como um sintoma de um homem”. Tal instância, diz Sílvia Ons, autora de livro com o mesmo título, “nos faz considerar a problemática pós-moderna, no nível das parcerias sexuais, onde cada vez mais temos que lidar não com um homem e uma mulher produtos de identificações advindas da resolução Edípica, que é a que permite a cada um se identificar com o ideal de seu próprio sexo. O que nossa sociedade vem mostrando é um certo apagamento do Feminino e do Masculino em prol de um individualismo, onde o andrógino se põe como marca ideal. (...) Podemos pensar que tanto para o sujeito Masculino como para o sujeito Feminino, atualmente resta colocar como seu parceiro ‘sintoma’, o próprio corpo. (...)O mito do “eu me amo”, um retorno ao auto-erotismo que possibilite apagar o impossível da relação”.
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