O evangelista Mateus é quem narra. ‘Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, ante ao tumulto que crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso’. Antes de chegar às barras do julgamento de Pôncio Pilatos, contam os evangelistas, que Judas Iscariotes, um dos doze discípulos, beija a face do Mestre como sinal de que Ele seria aquele a quem procuravam os soldados. E que, por isso, lhe foram pagas trinta moedas.
As interpretações dadas aos dois episódios bíblicos são muitas. Alguns especialistas dizem que Pilatos sabia da inocência de Jesus, mas ao lavar as mãos permitiu a sua condenação e morte de cruz. Outros dizem que Judas traiu o Mestre, mas seu arrependimento o teria livrado da culpa.
Teorias à parte, o certo é que Pilatos e Judas colaboraram significativamente para que Jesus percorresse uma Via Crucis sem precedentes, e para que tivesse uma morte agonizante entre dois ladrões, o bom e o mal.
Traidores e omissos dos tempos modernos não mais se utilizam de tais métodos para alcançar seus objetivos. A versão moderna disso tudo se chama abstenção.
Após duas grandes guerras mundiais, um longo período de guerra fria, a queda do muro de Berlim, a quase extinção do comunismo, reina, pelo menos em terras de Cabral, a tão sonhada democracia.
Na democracia a luta armada dá lugar ao diálogo. A força dá lugar ao voto. O domínio do forte sobre o fraco dá lugar à legitimidade do querer da maioria. Sendo assim, poder opinar através do voto é uma forma legal e legítima de todo e qualquer cidadão emitir seu juízo de valor sobre determinado fato ou candidato. Abster-se de votar é o mesmo que o “lavar as mãos” de Pilatos.
Se esse direito de votar lhe é outorgado por um grupo de pessoas com opinião formada sobre o assunto, abster-se é o mesmo que ‘beijar a face do Mestre diante dos soldados’.
Sendo isso uma verdade possível, os seis senadores que se abstiveram de votar na seção de cassação do mandado do Senador Renan Calheiros carregam consigo um pouco de Pilatos e um pouco de Judas. Pelo menos neste triste capítulo da história do senado brasileiro, Pilatos e Judas deram as caras.
Resta saber quem recebeu as trinta moedas e quem lavou as mãos. O crucificado e os ladrões nós conhecemos muito bem.
ALEXANDRE HENRIQUE LEONEL é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca.
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