A redução dos juros americanos em meio ponto pelo FED - para 4,75% - é a comprovação cabal de que, desta vez, a crise veio para valer.
Até o início do governo Bush, a administração de Alan Greenspan à frente do FED (o Banco Central americano) sempre privilegiou o mercado financeiro. Essa mesma postura era adotada pelo FMI.
Quando alguma bolha ameaçava explodir, Greenspan reduzia os juros. A redução dos juros provoca, automaticamente, a valorização dos ativos. E esses movimentos ajudavam a criar um colchão para reduzir o impacto da queda dos preços dos ativos provocado pelo furo da “bolha”.
Externamente, cada vez que um país entrava em crise, o FMI aportava empréstimos que permitiam aos especuladores sair sem perdas maiores. Foi assim com o acordo fechado com o Brasil, em 1998.
Essas duas facilidades aumentaram extraordinariamente a imprudência dos fundos “hedge” (fundos que visam ativos de alto risco). Valiam-se das altas taxas proporcionadas por países em crise, ou por ativos mal avaliados. Depois, na hora de pagar a conta, o FMI e o FED vinham em seu socorro.
O primeiro a pular fora foi o FMI, após uma forte declaração do primeiro Secretário do Tesouro do governo Bush, de que o país não ampararia mais especuladores.
Mas a era Greenspan prosseguiu por mais algum tempo, amenizando o estouro da grande bolha da Nasdaq (as ações de tecnologia), mas preparando o terreno para novas bolhas que só agora começaram a explodir.
O sucessor de Greenspan, Ben Bernanke, de sólida formação acadêmica, assumiu com o discurso de que havia acabado a era do apoio indiscriminado aos mercados. O FED só reduziria os juros quando crises financeiras pudessem abalar a economia real.
Os últimos indicadores apontaram para um desaquecimento da economia americana em ritmo mais pesado do que as previsões iniciais, logo após a crise do “subprime”.
Ontem, o Departamento do Trabalho anunciou que o PPI (índice de preços por atacado) registrou deflação de 1,4% em agosto. Na semana passada, foi anunciado o fechamento de 4 mil postos de trabalho - o menor índice desde 2003. Finalmente, as vendas no varejo, segundo o Departamento de Comércio, teriam caído 0,4%, se se descontasse a venda de automóveis. Os primeiros balanços pós-crise indicaram uma queda acentuada nos resultados das companhias abertas.
Tudo isso pesou para que Bernanke aceitasse reduzir os juros, e em nível mais forte do que o mercado vinha prevendo.
Há um conjunto de conseqüências:
1. Confirma-se que a crise é mais séria do que as previsões iniciais. Esse gesto, se de um lado alivia o mercado de capitais, de outro deverá manter o mercado de crédito travado por mais algum tempo.
2. Antes do sinal do FED, os bancos de investimento haviam voltado a recomendar o Brasil para seus investidores, devido às altas taxas de juros locais e às contas externas em ordem. Com a redução dos juros, esse fluxo deverá aumentar, a não ser que o Banco Central volte a acelerar a queda da taxa Selic.
3. Com a redução dos juros, haverá tendência de desvalorização ainda maior do dólar, chamando a atenção para os fundos soberanos (reservas de países emergentes aplicadas em países desenvolvidos)
ESTÁGIO DA CRISE
Pesquisa do The Wall Street Journal com 52 economistas americanos, entre os dias 7 e 10, revelou que a possibilidade de uma recessão na economia americana nos próximos 12 meses aumentou para 36%. No início da crise, era de 28%. 60% dos entrevistados acham que a crise no mercado financeiro de risco ainda está pela metade. Os demais acham que mal começou.
ERA GREENSPAN - 1
Em seu artigo semanal -publicado ontem em O Estado de São Paulo - o economista norte-americano Paulo Krugman destrói a reputação do ex-presidente do FED (o BC americano) Alan Greenspan, lembrando sua atuação no episódio dos cortes de impostos da era George W. Bush. O novo presidente assumiu prometendo cortar impostos dos riscos e seguro social dos pobres. Havia um clamor popular a favor da invasão do Iraque.
ERA GREENSPAN - 2
Em 2001 Greenspan deu declarações aparentemente a favor do corte de impostos. Sua fala foi bastante explorada pelo governo. Em particular, ele deu sinais de que a interpretação havia sido equivocada. Mas, convocado para depor na Comissão de Orçamento da Câmara, Greenspan relutou em se desmentir, reforçando a posição anti-fiscalista do governo Bush. Na época, foi alvo de críticas duras de Krugman. Mas seu comportamento piorou.
ERA GREENSPAN -3
Em 2004, quando Bush decidiu tornar os cortes permanentes, Greenspan concordou. A partir dali, marcou passo até o final do seu mandato. Hoje em dia, quando há uma discussão se ele foi, ou não, o maior presidente do FED americano, o fantasma volta do passado para assombrá-lo. Greenspan tornou-se, agora, um crítico feroz dos cortes de impostos. O que acentuou a gravidade da sua omissão, quando os cortes foram efetuados.
JUROS AMERICANOS
Desde julho de 2004, os juros internos americanos não pararam de subir. Saíram de 4% ao ano para 7,75% em abril de 2006 e 8,25% em maio de 2007. E isso para créditos “prime”, de baixo risco. Foi essa alta que provocou a elevação no valor das prestações hipotecárias, levando à inadimplência dos mutuários.
LADEIRA ABAIXO
A decisão do Fed provocou uma nova queda no valor do dólar, que bateu o piso psicológico de R$ 1,90. Se o BC não reduzir a taxa Selic, o dólar voltará rapidamente para os R$ 1,80. O investidor compara as taxas internacionais de títulos brasileiros (taxa do Fed mais juros) com as taxas internas. Quando o diferencial é grande, inunda o País de dólares, aumentando a dívida interna e apreciando o real.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.