Tinha um poste no meio do caminho, no meio do caminho tinha um poste. Tinha um hidrante no meio do caminho, no meio do caminho tinha um hidrante... As cenas encontradas em Franca inspirariam várias versões para o conhecido poema No Meio do Caminho, de Carlos Drummond de Andrade. Na cidade, por descaso dos responsáveis, ações do tempo e atos de vandalismo, calçadas e ruas estão cheias de armadilhas, especialmente para idosos e deficientes visuais. Os obstáculos incluem ainda caçambas, árvores, entulhos, buracos, motos, churrasqueiras e mesas e hoje são responsáveis por boa parte das quedas ocorridas em vias públicas.
Os problemas não se limitam à região central. Estão espalhados por todos os bairros. Na manhã de segunda-feira, o Comércio percorreu algumas ruas da cidade e conseguiu identificar, pelo menos, oito pontos onde a situação é crítica.Um deles é a Avenida Emílio Paludetto, na Vila Real. Num trecho de cerca de um quilômetro, praticamento não existe calçamento. É fácil flagrar pedestres entre os carros que transitam em alta velocidade pela via, principalmente nos horários de pico. O risco de um atropelamento é grande e assusta os que têm que passar por ali.
Os companheiros de trabalho Rodrigo Rodrigues, 28, e Narciley Oliveira, 32, ambos marceneiros, se arriscam todos os dias no local e temem sofrer um acidente. “Trabalhamos na Vila Hípica e saímos para almoçar. Sem calçada, vamos pela rua mesmo, de costas para os carros. É perigoso, mas não tem outro lugar para passar. Não temos alternativa”, disse Rodrigo.
Num outro ponto da cidade, é até difícil de acreditar, mas há um poste no meio da rua. O objeto sustenta os fios de energia elétrica e fica exatamente no meio do cruzamento da Avenida Cezário João Careta com a Rua Anita Maria Sola Telini, no Residencial Jovita de Melo. Para piorar a situação, a área não está sinalizada. Perdidos, os motoristas não sabem por onde passar.
Na mesma região, o lugar que deveria servir de passagem para pedestres está obstruído por mato, entulhos e até um hidrante. “Você vai andando pelo mato porque, se for pela avenida, pode ser atropelada. De repente, “brota” um hidrante no meio do nada. É um absurdo”, disse a vendedora Gisele Peres, 22.
Em outro ponto de Franca, mais obstáculos. Desta vez, o perigo está na Avenida Eliza Vieira Coelho, no Jardim Aeroporto II. No canteiro central de um trecho de apenas 200 metros, há uma placa indicando que é proibido estacionar, uma lixeira de ferro, um pneu velho jogado e um jardim com flores. Se o pedestre for atravessar a via, não conseguirá parar no canteiro para olhar se a passagem está livre. Os objetos impedem que ele faça isso.
No Centro, os problemas persistem. O arquiteto aposentado Jeancarlo Bergamini, 34, que o diga. No dia 7 de setembro, ele, que é deficiente visual, (perdeu a visão do olho esquerdo e tem apenas 30% no olho direito), transitava pela Rua do Comércio, próximo ao Banco Sudameris, quando caiu. “Tropecei nos suportes que seguram as correntes de carros e caí. Esfolei o ombro e joelho. Fiz um boletim de ocorrência e, pelo que falaram, arrancaram os objetos de lá”.
Essa foi a primeira vez que Jeancarlo sofreu uma queda, mas, ele mesmo diz que é por sorte. “O calçamento no Centro é horrível. Tem calçada que misericórdia...”.
Um recente levantamento realizado pela Prefeitura dá mostras dos obstáculos existentes na região central. Há três meses, o setor de Fiscalização e Obras fez um levantamento das calçadas do Centro que precisavam ser reparadas. Só nessa região, 135 pessoas foram intimadas a consertar as áreas de passeio. Do total, 11 foram multadas em R$ 225 por não cumprirem a ordem. “Começamos pelo Centro pois o uso das calçadas é contínuo e elas são mais antigas e estão mais danificadas. Os principais problemas são do piso (cimento) rachado ou estourado por raízes de árvores”. disse Air Fontanesi, chefe do Setor de Fiscalização, que não soube informar o total de calçadas existentes na área analisada.
Pela legislação, os proprietários são responsáveis pela construção e conservação da passagem na frente do seus imóveis.
O setor programa fechar o cerco contra calçadas irregulares nos bairros Cidade Nova e Estação. Depois de intimados, os responsáveis têm 30 dias para cumprir a ordem. “Como há menos reclamações de mato em terrenos baldios nesta época do ano, temos condições de deslocar os fiscais para o trabalho das áreas de passeio”, disse Air.
Os 12 fiscais participarão do levantamento. Aos pedestres e condutores de veículos resta torcer para que as melhorias atinjam as calçadas das 100 mil edificações de Franca e os 1070 quilômetros de asfalto da cidade. Reclamações de calçadas danificadas em outros bairros podem ser feitas pelo telefone (16) 3711-9125.
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