Calçadistas da cidade que estavam com baixa produção voltaram a movimentar as esteiras. Neste período de setembro a começo de dezembro trabalham normalmente ou senão acima das médias anteriores. Para a grande maioria deles, o ano tem sete ou oito meses.
O desempenho da quase totalidade das empresas calçadistas assemelha-se a um eletrocardiograma de recém-infartado, pelos altos e baixos acentuados que se alternam durante o ano.
Por se apresentar sempre fragilizada, especialmente a partir dos últimos doze anos, a indústria de calçados tem seu destino cada vez mais especulado pela comunidade. No geral, o francano quer vislumbrar com um mínimo de erro na interpretação se essa atividade tende a desaparecer gradualmente ou se renascerá revigorada, com alguma musculatura.
Entre os operários, predominam o desconforto e a insegurança. Não acreditam em dias melhores, constatamos. Há casos impressionantes de frustração e rancor. As avaliações dos demais profissionais da área variam de um extremo a outro. Somados os sentimentos e racionalizações, o resultado é lamentável para as empresas.
Lamentável porque o tal de capital não se restringe ao dinheiro, o representado pelos recursos humanos é tão ou mais importante. Quando a empresa e/ou seu trabalhador detém conhecimentos, aí então que o financeiro torna-se menos fundamental para viabilizar ou impulsionar o negócio. Invariavelmente é o contrário: o capital de conhecimentos faz dinheiro. Não sei se o exemplo se aplica à fabricação de calçados, pois sempre há as exceções.
Os que não atuam nessa atividade são solidários às problemáticas dela ou detratores. Esses dois agrupamentos têm em comum a facilidade de sentenciar pelo desconhecimento. ‘Essa indústria é uma das que mais empregam, precisa do apoio das Forças Armadas (norte-americanas de preferência)’, dizem os solidários. Mas ignoram a qualidade do emprego enaltecido.
‘Nossas fábricas são iguais burro de olaria. Rodam, rodam e nunca saem do lugar’, afirmam os detratores. São os que mais discursam. Volta e meia apontam a necessidade de Franca ter sua indústria diversificada, como se fosse possível realizá-la. Imaginam que se a municipalidade oferecer terreno, isenção da taxa de lixo e do imposto sobre serviços atrairá aos montes indústrias de informática, eletroeletrônicas, automobilísticas...
Também acusam os calçadistas de terem obstruído a desejada diversificação. Asseguram que desde 1950 teríamos aqui fábricas de cerveja, de pinga, de frango defumado, de cigarro e outros fumos não fosse o impedimento imposto pela sapataria. É o samba-enredo do branco doido. Este pensamento surrealista sai de muitos miolos há tempos.
A indústria de calçados nunca teve força para mudar o seu próprio destino, menos ainda para impedir a entrada de outras fabricações, seja ontem, hoje, amanhã ou anteontem. O sertanejo é pródigo nas imaginações. Daí haver em Franca mais escritores que leitores. Finalizando, há ainda a turma que julga haver coisas mais importantes na vida do que se preocupar com o futuro do sapato.
EXEMPLO NAS ALTURAS
A águia é a ave que possui a maior longevidade da espécie. Chega a viver 70 anos. Mas, para atingir essa idade, ela tem de passar por um processo doloroso de rejuvenescimento. Aos 40 anos, está com as unhas compridas e flexíveis, não consegue mais agarrar as presas das quais se alimenta. Seu bico alongado e pontiagudo fica mais recurvado. Já não voa com facilidade, porque as penas engrossam, aumentando o peso das asas.
A águia tem, então, duas alternativas: morrer ou enfrentar um sofrido processo de renovação que irá durar 150 dias. Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e se recolher em um ninho, próximo a um paredão. Começa a bater com o bico nas pedras até arrancá-lo. Ao nascer o novo bico, arrancará as unhas. Com as novas unhas, passa a tirar as velhas penas. Cinco meses depois, faz o vôo da renovação, para viver mais 30 anos.
Assim como a águia, há um momento na vida que também temos de eliminar tudo aquilo que se tornou um impedimento para atingirmos nossas metas, nossos desejos, sejamos pessoas físicas ou jurídicas. Não há outro caminho.
CONSTATAÇÃO
A organização é a condição primordial. É impossível obter bons resultados sem esse pré-requisito, segundo especialistas. Parece óbvio, mas, se fosse, não precisariam repetir isso desde os tempos de José no Egito.
Como a desorganização eleva o custo, não há meio termo: ou é eliminada ou repassada ao custo final do produto. Daí a diferença de desempenho de uma empresa para outra, embora estejam submetidas às mesmas exigências do mercado.
O pensamento voltado à melhoria constante dos processos de fabricação e sistemas de gestão não podem recuar nunca, acrescentam. E ressaltam: por melhor que seja, não há processo fechado à evolução constante.
DESEJO OCULTO
Sempre que alguém anuncia em uma roda de conhecidos que essa ou aquela indústria passa por dificuldades, em pouco tempo a empresa citada está falida nos comentários.
As pessoas não têm o cuidado indispensável de conferir a autenticidade do boato e o que seria um interesse natural sobre o andamento dos negócios no setor transfigura-se em maledicência. Ou ainda: ao adotarem o boato como fato consumado, revelam um desejo oculto de ver o insucesso a-lheio.
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