Na cola dos filhos


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Duas da tarde. Rodovia Cândido Portinari. A cada momento fica mais difícil seguir o Civic prata, quatro portas. Em 17 anos como detetive, Marcos * já se viu em situações complicadas, mas esta o surpreendeu. O casal segue em alta velocidade - 160 km/h, e subindo. Tenta manter perseguição numa moto, mas a potência do carro fala mais alto. O desafio de se manter na “traseira” do Civic, aos poucos, torna-se impossível. No carro, os passageiros – que não percebem a perseguição – parecem felizes. Compartilham gargalhadas e trocam carícias. O destino do casal é Pirassununga. Numa oportunidade única, o agente vê o carro encostar em um restaurante na beira da estrada, distante meia hora de Franca. Marcos parece não acreditar na chance de pôr um fim no “acompanhamento”. Pega o celular e liga para o cliente: “Eles acabaram de chegar aqui, venha e traga a polícia”. A história é real, envolve pessoas de Franca e exemplifica uma nova fase para os detetives particulares. Quem ordenou a investigação não foi o marido, nem o namorado ciumento. Foram os pais da garota, uma adolescente de 16 anos. O rapaz, de 23, teve que prestar esclarecimentos à polícia, mas não foi preso. Foi-se o tempo em que os detetives eram contratados apenas para investigar casos de adultério e desvio de dinheiro em empresas. Agora, os “monitores” são procurados com maior intensidade pelos pais para investigarem a vida dos filhos. João* é um deles. Com um filho de 16 anos, já se utilizou de um detetive para saber se o jovem usava drogas. “Descobri que meu filho fumava cigarro, mas droga ele não usou”, diz. Segundo o detetive Maurílio*, há mais de 20 anos na área, a procura para este tipo de caso subiu 60%. “Antes, nós atendíamos três casos por mês. De tempos para cá, são cinco”. Os motivos que levam os pais a investigarem os filhos vão desde freqüência na escola a comportamento em festas, passando por má companhia e drogas. A Internet também incentiva os pais a procurarem ajuda dos investigadores. Preocupados com quem está conversando com seus filhos pela rede mundial de computadores, eles pedem para os detetives instalarem progamas de espionagem, que registram os sites que o adolescente freqüentou e com quem ele conversou. “Uma vez, um senhor de 42 anos marcou um encontro com uma adolescente. No Orkut, ele dizia ter 17. Ao chegar no local, a jovem percebeu que não se tratava de um garoto e foi embora. Por sorte, nada aconteceu”, revelou Maurílio. Para desempenhar um bom trabalho, os detetives não ignoram a tecnologia. Utilizam microcâmeras em relógio de parede, binóculos que filmam no escuro e escutas telefônicas, entre outros instrumentos. Tudo com a autorização dos pais. O preço varia conforme a distância percorrida, os equipamentos a serem utilizados e os dias trabalhados. Para ações mais simples, o mínimo é R$ 350, mas o preço pode chegar a R$ 5 mil. “Geralmente, com duas semanas de trabalho, já temos material suficiente para apresentar um relatório”, diz o detetive Marcos. Para os detetives, a maioria dos pais busca ajuda para investigarem o envolvimento dos filhos com drogas. “Antes, eles se preocupavam com as más companhias. Hoje, o medo é focado especificamente quanto ao uso de drogas”, disse Amanda *, detetive há cinco anos em Franca que já investigou cerca de 12 casos do tipo. * A pedido dos personagens, os nomes são fictícios.

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