‘Vim para ficar’


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A procuradora da República Daniela Pereira Batista Poppi, 32, é francana e, depois de passar por outras cidades, assume vaga no Ministério Público Federal de Franca e diz que se sente novamente em casa. “Daqui não saio m
A procuradora da República Daniela Pereira Batista Poppi, 32, é francana e, depois de passar por outras cidades, assume vaga no Ministério Público Federal de Franca e diz que se sente novamente em casa. “Daqui não saio m
<p>Responsável por resguardar os interesses do governo federal em Franca, a procuradora da República Daniela Poppi afirma ter nascido para o cargo que exerce. Entre outras responsabilidades, ela investiga o uso de verbas federais e crimes como tráfico de drogas e falsificação de dinheiro. Medo? Existe, mas está sob controle. “O mal está aí, né? Mas procuro fazer o meu trabalho de forma correta”, diz.</p> <p><br />Vestindo saia na cor palha até os joelhos e blazer no mesmo tom, a procuradora, que já ganhou o apelido de “Musa do TRE” no Pará, explica que teve de driblar muitas dificuldades até ocupar a posição atual. Uma delas, a impossibilidade de estudar em colégios particulares. Cursou os ensinos fundamental e médio integralmente em escolas públicas.</p> <p><br />Jovem (32 anos), foge do perfil tradicional de autoridades. É alegre e falante, mas também defende suas idéias e posturas com convicção. Assume sem constrangimentos, por exemplo, que é amiga de Thalis Schoedl, o “promotor assassino”.</p> <p><br />Para facilitar a comunicação com as pessoas mais simples, não usa palavras difíceis. Diz que, agora, nada mais a tira da cidade. “Fiquei três anos e meio fora, mas, agora que estou em casa, não vou mais embora. Vim para ficar”. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como foi sua chegada à Procuradoria de Franca?<br />Daniela Poppi</strong> - Sou formada em Direito pela Faculdade Municipal, estudei por alguns anos e prestei concurso para a Promotoria de Justiça de São Paulo. Passei e exerci durante seis meses. Aí, passei no concurso do Ministério Público Federal há três anos e meio e cheguei aqui. </p> <p><strong>Comércio - E qual foi o seu caminho até chegar a Franca?<br />Daniela</strong> - Na verdade, fui e voltei, porque sou de Franca. Quando tomei posse no MPF,  mandaram-me para Belém, onde fiquei um ano. Logo depois que me casei, fui removida para São José do Rio Preto e, em outubro de 2006, consegui minha remoção para Franca. Antes era muito corrido, pois morava fora de segunda a sexta e vinha para cá nos finais de semana. Agora, estou em casa de novo. Vim para ficar. </p> <p><strong>Comércio - Quais suas metas?<br />Daniela</strong> - Primeiro, precisamos pôr a casa em ordem. Imagine, são três varas da Justiça Federal e só tinha um procurador (João Bernardo). Vamos, aos poucos, acertar isso para podermos começar outras frentes, como fiscalização de verbas federais que vêm para o município, os programas federais na cidade, como Bolsa Escola e Bolsa Família, enfim, dar respostas mais rápidas para a população. </p> <p><strong>Comércio - A vinda de uma delegacia da Polícia Federal ajudaria?<br />Daniela</strong> - Para a Procuradoria, seria ótimo. Teríamos mais atenção da PF, o que daria mais agilidade em nossos inquéritos. Além disso, não seria mais necessário ir até Ribeirão para tirar um passaporte ou atestado de bons antecedentes. </p> <p><strong>Comércio - Até que ponto a falta de uma unidade de PF complica a ação de vocês?<br />Daniela -</strong> Em tudo. Para requisitar instauração de inquérito policial, mandamos um ofício para Ribeirão. A cada 60 ou 90 dias, a PF pede prorrogação. Manda o pedido para a Justiça Federal, que encaminha para nós. Então damos o parecer, concordando ou não, devolvem para a Justiça, que manda de volta para Ribeirão. Com isso, há inquéritos não muito complexos que demoram até quatro anos para serem concluídos. </p> <p><strong>Comércio - Os exames para o Ministério Público Federal e Estadual são muito difíceis. A senhora passou nos dois. Qual a fórmula para isso?<br />Daniela</strong> - Não há fórmula. É fundamental ter perseverança. O problema é que a maioria das pessoas desiste, porque tenta uma, duas ou três vezes e não passa. Eu mesma, tentei três vezes para a Promotoria e outras três para a Procuradoria da República. Só passei na terceira vez. </p> <p><strong>Comércio - A maioria não tem acesso a boas escolas. Isso não atrapalha?<br />Daniela</strong> - Como a maioria das pessoas, não estudei em escolas particulares. Fiz o primário, que hoje é o ensino fundamental, na Escola Estadual “Caetano Petráglia” e o ensino médio na Escola “Júlio Cardoso”, a Industrial, junto com o curso de técnica em contabilidade. Não é a escola o fundamental, mas o esforço de cada um. </p> <p><strong>Comércio - Normalmente, a imagem de  procurador é de uma pessoa fechada, sisuda, o que não ocorre com a senhora, que é simpática, sorridente. Tem como exercer a profissão sem ser uma pessoa chata?<br />Daniela</strong> - Vai de cada um. Tive e tenho uma vida simples. Meu pai era bombeiro e minha mãe dona de casa. Depois de muito tempo, meu pai saiu de lá e montou uma lojinha de materiais de construção. Ele e minha mãe trabalhavam lá, juntos. Era uma luta e eu acompanhei tudo isso, também trabalhava lá com eles. Meu trabalho não me impede de ser uma pessoa normal. </p> <p><strong>Comércio - O fato de fugir do estereótipo lhe causou algum constrangimento?<br />Daniela</strong> - Já sim. Quando eu trabalhava no Pará, fiquei por um mês como procuradora do Tribunal Regional Eleitoral. E lá, havia muitas pessoas idosas. E eu no meio delas. Começaram, então, uns comentários e, quando fui ver, um jornal de lá começou a me chamar de “musa do TRE” (risos). Achei engraçado e lembrei daquele ditado: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Tiraram muito sarro lá e aqui por isso. </p> <p><strong>Comércio - A senhora já cometeu erros no exercício da profissão?<br />Daniela</strong> - No começo, a gente é um pouco radical, porque chegamos com aquela idéia rigorosa, de doutrinas e teorias dos livros. Depois, começamos a ver a realidade das pessoas, da sociedade, passamos a amenizar um pouco. No começo, fiz coisas que hoje não faria. Denunciei crimes que hoje não denunciaria, por se tratar de prejuízos insignificantes, coisas do gênero. </p> <p><strong>Comércio - Como é lidar com situações perigosas, como investigações sobre tráfico de drogas? A senhora tem medo?<br />Daniela</strong> - Realmente, há situações delicadas, pois envolvem muito dinheiro e pessoas importantes. Quando se atinge os interesses dessas pessoas, elas se voltam contra nós, mas  nunca fui ameaçada. Para evitar isso, procuro não perseguir ninguém, mas fazer meu trabalho certo. Medo não vou negar que há, porque o mal está aí, né? Há pessoas vingativas e sem escrúpulos. Mas buscamos ter alguns cuidados. Comércio - A senhora anda armada?<br />Daniela - Não. Temos os motoristas que nos acompanham e cuidam da segurança. A gente tem o porte de arma, mas a maioria não anda. Eu mesma prefiro nunca andar armada. </p> <p><strong>Comércio - Por falar em armas, o promotor de Justiça Thales Ferri Schoedl, que matou um jovem e feriu outro em uma briga, foi mesmo seu amigo?<br />Daniela</strong> - Sim, fomos aprovados no mesmo concurso para a Promotoria estadual. Fizemos escola juntos em São Paulo, onde recebemos muitas orientações sobre o porte de arma. Ele era um colega chegado. Ele era muito jovem, gostava de armas e comentou que com seu primeiro salário iria comprar uma arma. </p> <p><strong>Comércio - A decisão da cúpula do MP Estadual de não expulsá-lo, ao seu ver, foi corporativista?<br />Daniela</strong> - Acho que não. Tanto que, quando aconteceu, ele foi exonerado de imediato pelo Ministério Público. Até acho que não deveria ser assim, deveriam averiguar primeiro e tudo mais. Como ele estava no estágio probatório, não pensaram duas vezes, embora ele tenha conseguido reverter isso no Judiciário. Mas tanto não foram corporativistas, que ele conseguiu voltar a receber, mas não exerceu mais o cargo de promotor.</p>

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