O amargo do amor


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O ciúme é aquele sentimento que William Shakespeare chamou de “o monstro de olhos verdes” e que congrega em si fantasias de perda, traição, rejeição, abandono, rebaixamento de auto-estima e em que a tênue linha que separa realidade de imaginação se torna bastante difusa. O ciumento extremado consegue levar a si mesmo e o outro (alvo desse sentimento) ao inferno, porque, para ele, a traição ou o desejo de traição do outro é premente e dado como certo, de modo que o dispêndio de energia na tentativa de comprovar suas suspeitas seja enorme e desgastante: mesmo que consiga a confissão, negativa ou positiva, nunca se dá por satisfeito, muitas vezes desconfia que não soube de todos os detalhes e que precisa investigar mais. Assim, fica clara a idéia de que o ciúme patológico é muito mais um processo intrapessoal (de questões internas) do que interpessoal. Pode também ser ocasional, transitório e moderado, sem grandes prejuízos, baseado em fatos, “a pimentinha da relação”, no senso comum, ou chegar a proporções drásticas, como o que parece ser um caso de ciúme patológico, ao que tudo indica, alicerçado em fantasias, noticiado na última quinta-feira, pelo Comércio. O estopim do assassinato estampado na primeira página deste jornal foi a pronúncia do nome de outro homem pela companheira, durante o ato sexual, de acordo com o jovem de prenome Ulisses, acusado de matar a mulher por asfixia e depois esconder seu corpo sob uma cama. Conforme textos relativos ao episódio, que trazem depoimentos de pessoas próximas do casal, a vida em comum fora marcada por conflitos advindos das crises de ciúmes do rapaz. Dificilmente saberemos a porção fantasiada por Ulisses nessa história. Tanto do ponto de vista psíquico quanto da montagem da história mais adequada a ser apresentada na Justiça. Mas, para a compreensão e ilustração desse tema, suponhamos, seguindo as evidências, tratar-se mesmo de um acometimento de caráter obsessivo. São vários os mecanismos que engendram e mantêm tal sentimento, mas certo é que o ciúme patológico, as dúvidas com relação ao outro podem se tornar valorizadas demais e resvalar para o delírio. Também não são raros os casos em que o parceiro que é alvo de ciúmes procure insuflar neuroticamente reações dessa natureza em virtude de suas próprias dificuldades emocionais. De acordo com G. J. Ballone, “no ciúme patológico várias emoções são experimentadas, tais como a ansiedade, depressão, raiva, vergonha, insegurança, humilhação, perplexidade, culpa, aumento do desejo sexual e desejo de vingança. Haveria clara correlação entre auto-estima rebaixada, conseqüentemente a sensação de insegurança e, finalmente o ciúme. O portador de ciúme patológico é um vulcão emocional sempre prestes à erupção e apresenta um modo distorcido de vivenciar o amor, para ele um sentimento depreciativo e doentio. Esse paciente com Ciúme Patológico seria extremamente sensível, vulnerável e muito desconfiado, portador de auto-estima muito rebaixada, tendo como defesa um comportamento impulsivo, egoísta e agressivo”. INCAPAZES DE AMAR? Alguns teóricos da Psicanálise perfilam aqueles tipos cujas relações de afeto são governadas pelo ciúme, como pessoas incapazes de amar, em virtude de profunda ambivalência, ou seja, “eu o amo, mas também o odeio, porque ele me faz sofrer”. Na lógica ilógica da psicose, tal enunciado pode facilmente vir acompanhado de: ‘devo então eliminar o que me dói e me faz sofrer’. Também pode se apresentar como sintoma de uma série de outras dificuldades ou ainda, aparecer para mascarar outros conflitos. É, em sentido estrito e figurado, o veio do amor que não enlaça as diferenças e que mata: senão o outro, literalmente, faz ruir o relacionamento. A ARTE IMITA A VIDA OU a vida imita a... Duas obras clássicas dissecam o ciúme e são fundamentais a quem deseja conhecer a literatura e, por meio dela, um pouco mais acerca de si mesmo. Em Otelo, de William Shakespeare, o trágico personagem que dá título à peça é um general mouro que sucumbe ao ciúme por Desdêmona, insuflado por Iago e acaba por matá-la. Outro livro essencial para o tema é Dom Casmurro, de Machado de Assis. Em todo o seu percurso o autor mostra a devastação emocional do protagonista Bentinho, jogado no inferno da dúvida e do ciúme dolorido por Capitu. Ambas as histórias narram essa categoria de amores que, infelizmente, seguem na sua atualidade. VALORIZANDO A TERCEIRA IDADE Numa sacada que seria genial se não fosse óbvia e, ainda assim, relegada, o Grupo Siciliano, que possui várias livrarias espalhadas pelo país, resolveu, na contramão do empresariado que só tem olhos para a juventude, valorizar a experiência. A rede de lojas está contratando pessoas com mais de 45 anos de idade com bagagem de leitura e vivência literária para a função de Consultor Literário (há gente de mais de 80 anos no cargo!) Esses profissionais orientam compradores, opinam quanto ao acervo e, nos três anos dessa experiência, alavancaram os resultados da empresa. Prova da obviedade de que a experiência é um tesouro a ser perseguido e não banido das empresas. E em Franca, como é que anda a mentalidade neste aspecto?

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