‘Não Atire - Contém Ministros’


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Na última segunda-feira os ministros Márcio Fortes e Pedro Brito, das Cidades e dos Portos, respectivamente, foram alvos de tiros vindos da Favela do Jacarezinho, no subúrbio do Rio. Eles estavam dentro de um trem no momento dos disparos. A imprensa carioca destacou: ‘Segundo a polícia, ninguém ficou ferido. Os tiros foram efetuados no momento que os ministros inspecionavam as obras de revitalização do acesso ferroviário ao Porto do Rio. O governador do Rio, Sérgio Cabral, estava na inspeção, mas não embarcou no trem e saiu momentos antes dos disparos serem feitos’. Sorte a dele. A cena dos engravatados tentando se esconder dentro do vagão ganhou espaço nos jornais, telejornais e na internet e revela o medo, o desespero, a luta pela preservação da vida, sentimentos natos de todo e qualquer ser humano, até mesmo de ministros de Estado. E verdade seja dita, o povo brasileiro está acostumado a vivenciar isso, cotidianamente. Talvez os ministros não saibam, mas aqui onde vivem os trabalhadores, pagadores de impostos, o medo, o desespero e a luta pela preservação da vida é uma constante. Quando não temos as balas perdidas, as temos certeiras contra nossos filhos e outros entes queridos. Quando não somos alvejados por disparos de armas de fogo, somos feridos de morte por atitudes pouco ortodoxas de homens que eleitos por nós e pagos por nós não se cansam de usurpar a velha viúva. Talvez os nobres ministros não saibam, mas aqui em baixo onde as leis são diferentes, a luta pela preservação da vida começa de madrugada, por exemplo, na fila para conseguir uma consulta médica no sistema único de saúde que paga pouco mais de sete reais ao médico que se sujeita a trabalhar para o Estado brasileiro. Talvez os ministros não saibam, mas sentir-se inseguro, ameaçado, com a vida por um fio, é coisa normal para nós simples mortais do país de todos. O episódio “tiros ao trem” é sintomático, revela a ousadia, a prepotência, a arrogância do Estado paralelo que vem dominando o País, primeiro nos grandes centros e mais recentemente nas cidades do interior. Pior que as cenas de tiro ao alvo praticadas contra o trem dos ministros foram as declarações dadas pelo diretor da coordenadoria de recursos especiais da polícia civil - ‘o ataque a tiros ao trem que conduzia dois ministros e um secretário estadual foi obra de traficantes desavisados, que não sabiam haver autoridades dentro da composição’. De acordo com a imprensa carioca o delegado teria dito que ‘se soubessem, os traficantes não dariam os tiros que acertaram o trem’. Como assim, ‘obra de traficantes desavisados’? Teria sido uma falha do cerimonial - vide abertura do Pan 2007 - que não comunicou oficialmente e em papel timbrado com o brasão da república federativa do Brasil aos senhores traficantes amantes do tiro ao alvo, que naquele vagão eles não podiam atirar porque tinha ministro? Fala sério, ‘obra de traficantes desavisados’ está no páreo com o ‘relaxa e goza’, com o ‘f...-se’ e tantas outras pérolas já registradas nos anais da grotesca e bizarra política tupiniquim. Ao povo resta uma alternativa: criar um adesivo para colar em pára-brisas de carros e trens com a inscrição ‘Não Atire - Contém Ministro’. Assim e quem sabe, ficaríamos imunes à guerra civil não declarada instalada no País e que nos mantém presos enquanto várias espécies de bandidos circulam livremente do Oiapoque ao Chuí. ALEXANDRE HENRIQUE LEONEL é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca.

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