Trabalho na noite


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Longe da família, trocando o dia pela noite, de bar em bar, viajando milhares de quilômetros por mês. Chato para uns e muito divertido para outros, a rotina dos músicos que trabalham na noite e sobrevivem nessa profissão não é fácil, apesar de apaixonante. E é a paixão que faz estes artistas superarem os obstáculos da falta de reconhecimento da profissão e do trabalho e ainda sonharem com o sucesso. O caderno Artes inicia hoje uma série de reportagens semanais para revelar os talentos musicais de Franca e região. Bandas e cantores em carreira-solo de todos os estilos que se apresentam na cidade terão espaço para contar suas trajetórias, dificuldades e sonhos. A banda A3, de Franca, formada por Valter Limonta Júnior, 40 anos, Wellington Edivaldo Barbosa, 27, e Marciel Alexandre Ferreira, 28, ou simplesmente Valtinho, Tom e Boi, abre a série. Eles estão na estrada há quatro anos, com a formação atual, e o repertório eclético de Frank Sinatra a Rionegro & Solimões, passando por Sidnei Magal e U2, agradaram tanto que a banda tem presença garantida toda quarta-feira no Boteco do Lu. E é sinônimo de casa cheia. “Acho que o segredo do nosso sucesso é tocar para todo mundo, todos os estilos. Isso fez com que a banda decolasse. E também tocamos em qualquer tipo de evento, barzinho, casamento, até em inauguração de loja já tocamos”, disse Valtinho. Com a agenda lotada de quarta a domingo com shows em Franca, região, cidades de Minas Gerais e até São Paulo, as mulheres dos músicos conciliam os maridos com o público. Mas elas entendem, afinal as três conheceram os maridos na noite, enquanto eles tocavam/trabalhavam. O CAMINHO A música surgiu na vida de Valtinho - baterista, vocalista e administrador da banda - aos 18 anos, quando ele percebeu que não sabia fazer nada na vida. “Eu vi um anúncio de uma banda que precisava de músico, aí fui começar a aprender. Eu tinha pouca experiência e em fanfarra”. Ele sempre trabalhou com música, tocando e dando aulas, e hoje é quem administra a banda, contrata músicos e agenda os shows. “Eu consegui ter minha casa, meu carro e sustento meus três filhos com a música. Hoje eu trabalho para me manter”. O contrabaixista Tom também não precisou exercer outras profissões. Começou cedo, aos 7 anos, tocando violão na banda do seu pai. “Aos 12 montei uma dupla sertaneja com meu irmão. Depois disso participei de bandas de baile, pagode e forró”. Para o guitarrista Boi, amigo de infância de Tom, a música também surgiu na infância, aos 10 anos, tocando violão. Aos 15 já tocava em bares à noite. “O pai do Tom tinha uma banda e me chamou para tocar com eles. Mas já tive que trabalhar como sapateiro, mecânico, garçom, porque já passei por dificuldades financeiras. Hoje eu consigo viver só da música”. A CHEGADA A música feita a três pessoas (que originou o nome da banda, A3) é motivo de realização profissional e pessoal dos integrantes. “Eu amo o que faço, não ganho rios de dinheiro, mas sou feliz. Espero ter meu trabalho reconhecido como músico e produtor e morrer velhinho fazendo música”, ressalta Tom. Boi também espera reconhecimento. “Tirando minha mulher, ninguém leva música a sério como profissão. Mas eu sem isso não sou ninguém”, brinca. Valtinho também se considera realizado. Mesmo assim, o sucesso sempre é esperado. “Todo músico tem esse sonho. Mas o sucesso é conseqüência do trabalho. O que falta é arrumar um bom patrocinador para gravar um CD”. Fãs dispostos a ajudarem não faltam. O comerciante Luiz Barão, 45, vai toda quarta-feira ao Boteco do Lu para acompanhar o grupo. “Se eu tivesse dinheiro eu pagaria para a banda A3 tocar no Domingão do Faustão”.

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