João, um empresário de apenas 13 anos


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João (nome fictício) mostra o celular e bicicleta que comprou com o dinheiro da venda de balas. Garoto trabalha para ajudar mãe deficiente
João (nome fictício) mostra o celular e bicicleta que comprou com o dinheiro da venda de balas. Garoto trabalha para ajudar mãe deficiente
João* (nome fictício) é uma figura. Esperto e comunicativo, tem sempre respostas na ponta da língua. Não é difícil entender por que o garoto é tão bem resolvido. Ele começou a trabalhar como engraxate aos 10 anos, quando morava na sua terra natal, Juazeiro do Norte (CE). Em Franca desde março de 2006, vende balas e chicletes para ajudar a mãe, que é deficiente física. Hoje, aos 13 anos, é praticamente um empresário. Ele próprio organiza seus horários, dias de folga, decide os pontos** onde vai vender e divide o lucro entre as despesas da casa e o que tem vontade de comprar. João foi criado apenas pela mãe, que se separou do marido depois de engravidar dele, e tem uma irmã de 15 anos. Desde criança, o garoto convive com as dificuldades em casa, especialmente depois da sua mãe parar de andar. A dona de casa teve uma infecção na coluna e ficou dois anos na cadeira de rodas, dois se arrastando pelo chão e hoje depende de muletas para dar alguns passos. A iniciativa de trabalhar para ajudar no sustento da família partiu dele. “Gosto de trabalhar. Trabalhando vou ficar no mundo das pessoas que não são do mal”. Ao lado da mãe e da irmã, João se mudou para Franca há um ano e meio. Quando chegou à cidade, catava latinhas e pedia dinheiro para as pessoas na rua. No começo deste ano, quando abordou um senhor num bar pedindo trocados, recebeu uma sugestão. “Ele falou que era para eu vender bala que ia ganhar muito mais que ficar pedindo dinheiro para os outros. Falei para minha mãe e comecei a vender halls, trident e pastilhas”, disse João. O menino trabalha de quarta a domingo. Durante a semana, fica fora das 15 até 21 horas e aos fins de semana, quando o movimento é maior, começa mais cedo, ao meio-dia e só volta para casa dez horas depois. Ele compra marmitex e almoça fora. “Eu decido quando vou trabalhar. Fico de folga na segunda e terça-feira porque vende muito pouco”. João consegue entre R$ 30 e R$ 40 por dia. O dinheiro complementa os R$ 380 do benefício que a mãe dele recebe do governo. “Ajudo a pagar o aluguel (R$ 150 por uma casa de dois cômodos), água, luz e comprar coisas para mim”. Satisfeito com os negócios, apresenta sua estratégia para mostrar as vantagens de suas vendas. “Quando trabalhava de engraxate no Nordeste levava 30 minutos por cliente e ganhava só R$ 1. Agora, em meia hora, vendo uns R$ 5 de balas. É bem melhor”. Com a venda das guloseimas já conseguiu comprar uma bicicleta usada por R$ 70 para usar como transporte para trabalhar e um celular de R$ 250. Ele junta o dinheiro primeiro para depois fazer as compras à vista. “Quis o telefone para minha mãe conseguir falar comigo se estiver preocupada ou eu ligar para ela se acontecer alguma coisa”. Apesar da precaução, disse não ter receios de ficar sozinho e com dinheiro na rua até à noite. “Sou homem, não sou gay”, disse com a sabedoria de seus 13 anos. A mãe é deficiente física faz nove anos. Antes, chegou a trabalhar numa fábrica de embalagem de perfumes, montagem de malas e como faxineira. “Não tenho como trabalhar mais. Meus filhos que me ajudam (a filha mais velha é doméstica). Tenho benefício de R$ 380 por mês. Com esse dinheiro, eu e os dois não passaríamos fome, mas seria mais difícil. Apesar de precisar, não boto o João para vender bala. Ele quem quer para poder ter as coisas dele, que não posso comprar”. João tem outras atividades além do trabalho. Estuda na 5ª série de uma escola estadual, faz catecismo, aulas de natação e brinca com os amigos vizinhos nas horas vagas. Geralmente, a rotina dele começa cedo. Na escola, fica das 7 horas às 12h20, depois retorna para casa, almoça, descansa um pouco, faz tarefas e segue para as ruas para trabalhar. De vez em quando, passeia no Franca Shopping. Os três maiores sonhos de João são ser bombeiro, montar uma fábrica de sapatos e que a mãe não morra nunca. Pelo menos para realizar o segundo desejo ele já se prepara. Com auxílio da mãe, abriu uma conta bancária para guardar dinheiro. “Abrimos uma poupança no banco para ele e quando pagarmos a geladeira, vamos começar a guardar dinheiro para que possa estudar e quem sabe comprar uma casa própria. Queria comprar um lugar para meus filhos morarem, afinal não vou viver a vida toda”, disse a mãe. Talvez, João desista de ser bombeiro pela necessidade de aprender a lidar com perdas. “Queria ser para ajudar as pessoas, mas estou vendo que as pessoas também morrem e se acontecer comigo, ficarei muito triste”. conselheiros A legislação não permite que menores de 16 anos trabalhem. Ontem, o Conselho Tutelar recomendou à família de João procurar a assistência social para conseguir ajuda. A conselheira tutelar Vanessa Tristão disse que o orgão pode fazer o encaminhamento da família para a Prefeitura. “A mãe nem a criança estão erradas. Se o garoto não trabalhar, não come. É o poder público que tem de se responsabilizar e amparar os familiares dando recursos para as crianças não terem de trabalhar”. A bolsa paga pelo Peti é de R$ 40 mensais. Caso troque o traba-lho pelo auxílio, João receberá em um mês o que ganha num dia vendendo balas. (**O Comércio da Franca sabe onde João trabalha, mas decidiu omitir essa informação para não pre-judicá-lo. O jornal entende que o trabalho aos 13 anos, desde que não seja degradante e não conflite com os estudos, é válido.

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