Golpismo, doença senil


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Uma das características da política brasileira, desde a proclamação da República, é o golpismo. Quando predominou, resultou em períodos de ditadura: Vargas, de 1930 a 1945; o regime militar, de 1964 a 1985. Por causa disso, é atribuído às forças conservadoras. Mas é um erro imunizar a esquerda dessa doença senil. Em pelo menos três momentos, ela embarcou no golpismo: em 1935, com a Intentona Comunista; em 1964, contra a política de conciliação de San Thiago Dantas, no governo João Goulart; e na década de 1970, quando optou pela luta armada contra o regime militar e deu as costas às eleições. O Partido dos Trabalhadores sempre pautou sua atuação por um certo esquerdismo, mas chegou ao poder aos movimentos populares, sobretudo o sindical, e por um esforço eleitoral continuado, que levou Lula ao Planalto, em 2002, depois de perder três eleições. Foi a antítese do golpismo. Lula foi reeleito graças às ações de governo mais do que pela mobilização partidária. Tanto o primeiro mandato, como o segundo, foram pautados pela moderação. Ele formou um governo de compromisso com as elites econômicas e de coalizão com forças políticas moderadas. Com isso, neutralizou a oposição. O golpismo, na essência, é uma concepção que subestima a participação do povo na resolução dos problemas nacionais e/ou desrespeita as regras democráticas. Parte da idéia de que o Estado resolve tudo e, tomá-lo de assalto é a chave para mudar o social. Nesse aspecto, não diferem muito o golpismo de direita ou de esquerda, ambos são autoritários. Quando a lógica golpista passa a dar as cartas, a crise institucional se instala. Seu desfecho é um ato de força. O fracasso do líder comunista Luiz Carlos Prestes em 1935 serviu de pretexto, dois anos depois, para que Vargas implantasse o Estado Novo. Em 1964, a radicalização política foi agravada pelo fato de que trabalhistas e comunistas resolveram fazer a reforma agrária “na lei ou na marra” e lançar candidatura de Leonel Brizola, cunhado do presidente João Goulart. Consideravam um retrocesso a volta ao poder de Juscelino Kubitschek. Na década de 1970, a luta armada foi suicídio político. Provocou o endurecimento do regime militar. O que funcionou foi a mobilização pacífica da sociedade e o voto popular contra o regime. O PT teve uma recaída esquerdista. O partido aprovou propostas no mínimo polêmicas das quais, pelo menos quatro estão fora da realidade: a reestatização da Vale do Rio Doce, a democratização das Forças Armadas, o controle social sobre a grande mídia e a convocação de uma Constituinte para reforma política. Soam como declarações de guerra contra setores que hoje dão sustentação ao governo Lula e ao Estado. A questão da Vale coloca o PT em confronto com os grandes investidores que participaram das privatizações. A tese da democratização das Forças Armadas é uma bala perdida na questão militar, cujo cerne sempre foi a hierarquia e a disciplina. O controle social dos meios de comunicação mal disfarça o objetivo de “domar” os grandes meios de comunicação. Finalmente, a Constituinte exclusiva, para fazer a reforma política, representaria o esvaziamento do Congresso, eleito juntamente com o presidente Lula. São quatro teses para mudar as regras no meio do jogo. A causa talvez seja o fato de que o PT controla o governo, mas não tem um candidato para se manter no poder em 2010. LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista.

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