<p>Nome influente na política nacional e segundo colocado nas eleições para presidência, com 40 milhões de votos, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) é um dos favoritos para as eleições municipais na capital paulista em 2008. Ao lado de José Serra e de Aécio Neves, é um dos nomes do partido com possibilidade de suceder o presidente Lula (PT) no Palácio do Planalto. Questionado sobre o assunto, deixa caminhos abertos para as duas possibilidades. “Sempre estou animado para trabalhar pelo povo. Posso ser candidato em 2008 ou em 2010”, disse.</p>
<p><br />Depois de disputar o segundo turno das eleições presidenciais - se considera um vencedor - o político descansou por alguns dias com a família e viajou para estudar nos Estados Unidos. Durante seis meses, participou de um curso de Política Internacional na Universidade de Harvard.</p>
<p><br />O ex-governador dá aulas em três universidades de São Paulo, voltou a exercer a profissão de médico e percorre o País palestrando. Na quinta-feira, Alckmin esteve em Franca para a festa do Comércio. Antes, falou sobre Administração Municipal para um seleto público de convidados no auditório “Jornalista Corrêa Neves”. </p>
<p><br />Em entrevista exclusiva, analisou o atual cenário político nacional e defendeu as parcerias entre poder público e privado. “Os investimentos em parceria são o futuro da administração no Brasil e no mundo”. Confira os principais pontos da entrevista. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Qual a avaliação que o senhor faz das novas instalações do Comércio?<br />Geraldo Alckmin</strong> - Fico feliz de ver que Franca, um pólo de desenvolvimento regional, tenha um pólo de comunicação como são o Comércio e a Difusora. Não deixa nada a desejar sob os pontos de vista gráfico, tecnológico e conteúdo editorial. Vivemos no mundo do conhecimento e a informação é um subsídio importante para a sociedade. A boa imprensa é a sociedade conversando consigo própria. </p>
<p><strong>Comércio - Como tem sido a vida do senhor após deixar o governo paulista e ter perdido as últimas eleições presidenciais?<br />Alckmin</strong> - Encerrada a campanha, fiz uma avaliação e fiquei muito feliz. Ganhei a eleição nos dois turnos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Roraima. Em São Paulo, em quase todos os municípios. Tive quase 40 milhões de votos. Depois, recebi um convite da Universidade de Harvard para fazer um curso no primeiro semestre de política internacional, que foi uma experiência importante. Atualmente, dou aula em três universidades em São Paulo, nas áreas de saúde pública e administração, e tenho feito muitas palestras. Também voltei à medicina, no Hospital do Servidor Municipal, em São Paulo. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor ficou frustrado com a derrota para o presidente Lula?<br />Alckmin -</strong> Veja que 40 milhões de brasileiros saíram de casa vendo que nós iríamos perder, porque as pesquisas mostravam o favorecimento de Lula. Aliás essa é uma questão que precisa ser revista. Nos Estados Unidos, dizem que o presidente é eleito por oito anos, podendo interromper no meio. Veja como é a legislação brasileira. Tive de renunciar ao mandato de governador um ano antes da eleição. E meu concorrente continuou no cargo, com a caneta cheia. Gastou R$ 20 bilhões em seis meses. Mas foi, no geral, uma experiência muito positiva. Não tive decepção, embora perder não seja agradável. </p>
<p><strong>Comércio - Quais seus próximos passos dentro da política?.<br />Alckmin</strong> - Estou sempre animado a trabalhar pelo povo, principalmente pela população que mais precisa. Posso ser candidato em 2008 (para prefeito de São Paulo), ou em 2010 (para governador do Estado ou presidente). Não tenho ainda uma decisão tomada, vamos deixar as coisas andarem um pouco mais. </p>
<p><strong>Comércio - O PSDB tem muitos nomes de ponta, seja para prefeito da capital, governador do Estado ou presidência. Como enfrentar tanta concorrência interna?<br />Alckmin</strong> - Esse é um bom problema. Pior se no partido não tivesse no quadro pessoas capacitadas e experientes para assumirem responsabilidades mais altas. É um processo natural, de democracia interna, onde o PSDB vai sempre colocar o interesse do povo em cima dos interesses pessoais, por mais legítimos que eles sejam. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor levou até as últimas conseqüências sua vontade de disputar as eleições presidenciais e, com isso, dizem que acabou boicotado por partidários e até alguns aliados, como Aécio Neves e José Serra. Como o senhor vê isso?<br />Alckmin</strong> - Sempre digo que se eu for candidato e não me eleger a responsabilidade é minha. Não transfiro responsabilidades para terceiros. A grande dificuldade foi enfrentar o governante do cargo, não a falta de apoio. Onde a economia é mais forte e a influência do governo é menor eu ganhei. Nas outras, tive mais dificuldades. Faz parte do jogo político. </p>
<p><strong>Comércio - Para o senhor, a notória falta de sucessores para o presidente Lula no PT deixa o caminho livre para que o PSDB retorne ao poder?<br />Alckmin</strong> - Não tenho dúvida disso porque o Lula não poderá ser candidato. Então, não vai ter um presidente disputando a eleição no cargo. É como nos Estados Unidos. Os presidentes Bush, Reagan, Clinton ficaram dois mandatos e não fizeram o sucessor. O próprio Fernando Henrique Cardoso, contra o Lula, nem segundo turno teve. Ganhou sem sair do lugar. Sem isso, o páreo fica equilibrado. Vejo que o PSDB tem muita chance de vencer à Presidência e fazer um bom governo. </p>
<p><strong>Comércio - Como o senhor analisa o governo Lula?<br />Alckmin</strong> - Quem tem que fazer análise é o povo. Não vou dar nota para o presidente. Quando acabou a apuração, desejei ao presidente Lula um bom mandato. Não por ele, mas é o que desejo para o Brasil.<br />Chamo a atenção para que é preciso começar esse segundo mandato com entusiasmo, fazendo as reformas necessárias, como a tributária, previdenciária, trabalhista, diminuindo encargos sobre as folhas de salário, que são altíssimas. Se não fizer este ano, não faz mais. O primeiro ano é importantíssimo para essas reformas e dará um norte sobre o que devemos esperar do segundo governo de Lula. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor ressalta que tem forte empatia com Franca. Quais as principais realizações que destaca em seu governo para a cidade e o que acredita que não conseguiu fazer aqui?<br />Alckmin</strong> - Procuramos suar a camisa. Primeiro na questão do emprego. Principalmente com a indústria do calçado e de artefatos de couro, que gera muita renda e muitos empregos. Reduzimos o imposto de 18% para 12% permitindo que essas indústrias possam competir. Mesmo com a moeda tão sobrevalorizada e o câmbio tão ruim, Franca continua no páreo. Investimos também em infra-estrutura, com a duplicação da Rodovia Cândido Portinari e de estradas na região.<br />Além disso, reformamos escolas técnicas, da rede estadual e fizemos parcerias com os municípios da região, sem distinguir questões partidárias, com asfalto, água, saneamento, pontes e estradas. Na segurança pública, os índices de criminalidade da região de Ribeirão Preto e Franca despencaram. Certamente ainda há muito o que fazer. Hoje, o grande desafio é a saúde. Não só em Franca, mas no Estado e em todo o País. </p>
<p><strong>Comércio - Em relação à saúde e educação, que são obrigações do Estado, uma parte significativa da população, para ter atendimento digno, tem de pagar por isso. O senhor considera antiético o governo receber das pessoas e não fornecer um serviço de qualidade?<br />Alckmin</strong> - A rigor, você tem 25% da população que tem convênio, os outros 75% dependem do SUS (Sistema Único de Saúde). Na Educação os dados são semelhantes. Deveríamos oferecer esse serviço de qualidade. Esse deve ser o objetivo. O caminho são os novos modelos de gestão. Há hospitais onde quem faz a gestão é o setor privado. Uma saída seria que o governo devolvesse o dinheiro de quem pagou e não usou o serviço público de saúde através do imposto de renda. Isso valeria para a Educação: você não utilizou escola pública e sim a particular, tem o seu dinheiro de volta. Mas para tudo isso, é preciso que o governo corte gastos. Vamos chegar a 40% do PIB (Produto Interno Bruto) de carga tributária. É o dobro de Argentina, México e Venezuela. Qualquer boa intenção precisa passar, primeiro, por esse ponto.<br />Colaboraram Eduardo Schiavoni e Vinicius Araujo.</p>
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