Independência e o caso Thales


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O caso do promotor Thales Ferri Schoedl, que movimentou todo o País nas últimas semanas, é controverso e merece debate profundo. Cabe, pois, uma análise apurada das decisões do Judiciário e do que elas representam para o cotidiano da sociedade brasileira. Vamos, pois, primeiro, ao caso. Thales é promotor de Justiça. Ele confessou ter matado o jovem Diego Mendes Modanez, 20, e atirado contra Felipe Siqueira Cunha de Souza, hoje com 23, na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, em 30 de dezembro de 2004. Diego é filho de Fábio Pira, jogador de basquete que fez história em Franca. O promotor disparou 12 tiros contra os dois jovens. Segundo ele, o crime foi motivado por legítima defesa, já que, ao voltar para casa com a namorada Mariana Uzones Batoleti, então com 19 anos, um grupo de mais de dez rapazes passou a olhar para a moça e tecer comentários pouco elogiosos. Ele não teve dúvidas usou da arma que carregava na cintura e atirou contra os dois. Preso por 40 dias, foi solto e espera julgamento em liberdade. Afastado da Promotoria, continuou a receber o salário, de R$ 10,8 mil. No fim de agosto, o Conselho Especial do Ministério Público Estadual de São Paulo julgou e determinou que o promotor deveria permanecer no cargo até o seu julgamento final. Com isso, ele ganharia estabilidade e poderia ser julgado em foro especial. Percebendo a lambança que o MP paulista aprontou, o Conselho Nacional do Ministério Público suspendeu na segunda-feira a decisão e ainda retirou Thales de seu cargo. Decisão acertada que atingiu, em cheio, o corporativismo da Justiça brasileira, um dos maiores cânceres que nossa República suporta. Sobre o assunto, a procuradora da República federal em Franca, Daniela Poppi, tem opinião formada. Ela foi colega de sala de Thales e diz que, ainda que fosse extremamente educado e cordial, desde jovem Thales gostava de armas e que a sensação de ter o poder em mãos o tornava amargo e brutal. Para ela, a segunda decisão foi a correta. Na semana onde comemoramos a Independência do Brasil, a Justiça deu ao cidadão brasileiro um dos maiores presentes que poderíamos desejar. Mostrou que, em um País onde a Justiça tradicionalmente protege criminosos diplomados e advogados aproveitam de sua condição para praticarem crimes hediondos sem serem molestados, é possível que o bom-senso e a ética prevaleçam. A decisão deve servir de exemplo e mostrar que, embora lenta, a mudança nas instituições brasileiras é impossível de ser detida. É pouco, evidente, posto o tamanho dos problemas que assolam nossa sociedade, mas está em curso. Oxalá que, no mês da Independência brasileira frente ao Reino Unido de Portugal e Algarves, o Judiciário, acompanhado de toda a sociedade, possa soltar, finalmente, o seu grito de independência. EDUARDO SCHIAVONI é editor-assistente do caderno Local, educador, radialista e escritor.

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