Um capital negligenciado


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É uma lástima que eu já tenha tido a idéia de titular muitos dos meus artigos na forma de ‘Por um Brasil...’, já que, no território dos grandes contrastes, mais se idealizam cenários do que se regozija de alguma conquista. Não é pequena a lista do que deve mudar no país, e que não se pense que o cidadão que não exerce diretamente algum cargo político nada tem a ver com isso, mas, por essa razão, devem-se sugerir prioridades nas políticas públicas e muito investimento naquilo que mais precisa em vez de desperdiçar dinheiro em programas ultrapassados. O setor da educação ainda deixa muito a desejar e não será fácil resgatar essa deficiência. Os dados mais recentes do Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (INAF), pertencente ao Instituto Paulo Montenegro, apontam que 26% da população brasileira de 15 a 64 anos é plenamente alfabetizada. As estatísticas da educação no Brasil têm sido comparadas às de alguns países da África, uma vez que até Coréia do Sul e China têm índices melhores. E não é à toa que estes países ostentam taxas de crescimento e participação na economia internacional cada vez maiores. O Brasil não pode prescindir da formação de seu quadro humano se quiser alcançar nível de potência. Seu quadro da administração pública não está tão sensibilizado com essa necessidade, o que demonstra a negligência com a herança cultural ou aquilo que temos de mais valioso, que é a oportunidade de aprender e transmitir. Prova disso são as greves recorrentes que assolam as universidades públicas, como as três estaduais de São Paulo. A educação deve ser vista como um processo prazeroso e construtivo, ao contrário da concepção de mera obrigatoriedade ou enfado que possui. É um capital investido no e pelo indivíduo, que em toda sua vida contribuirá para que tenha melhor entendimento do que o circunda e reaja de maneira mais inteligente. Excetuando alguns grandes avanços, como a Lei de Diretrizes e Bases de 1996, nossas políticas, desafortunadamente, acompanham a maré dos votos e atendem com um elevado orçamento aos caprichos da demanda das desigualdades que existem no país e da própria pobreza, que se perpetua com políticas defasadas; as escolas tornam-se ambientes onde não se respeita o relevante papel de educador que têm os professores; as bolsas de pesquisa são muito limitadas, concorridas e de baixo valor; o incentivo ao intercâmbio universitário e ao desenvolvimento técnico está aquém do desejado, o que estimula a fuga de pesquisadores de alto nível para universidades no exterior. A principal solução é que o governo construa políticas mais duradouras de incentivo à educação, com um aumento substancial no orçamento dirigido ao Ministério da Educação, e que este patrocine mais diálogos entre os protagonistas deste setor no Brasil. Outra das saídas é que empresas e governo exijam melhor escolarização para os que buscam emprego de modo a coagir que tenham mais anos de estudo, embora, se o plano for mal aplicado, estimule a não-repetência independentemente do desempenho. O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é capaz de avaliar os estudantes com questões bem elaboradas de conhecimentos gerais, e, a partir daí, é possível também sugerir medidas mais específicas para melhorar a educação no país. Se uma mudança desse gênero não for promovida, mesmo que com outras estratégias, o país seguirá tendo o subdesenvolvimento enraizado em sua cultura, que o transmite e retransmite sem perspectiva de mudanças. É um grande capital negligenciado. BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em Relações Internacionais.

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